segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Adeus - microconto de Luli Facciolla

E lá estava ela, largada ao sofá, rosto lavado em lágrimas, peito dilacerado em dor.

Havia pensado em tudo: lingerie vermelha sob um vestido curto que permitia mostrar as pernas, comida pronta e levemente picante, vinho seco e gelado na medida e a meia luz dando o toque final àquele encontro romântico de despedida. Seria a última vez.

Ele entrara com um chute de arrebentar a porta. Sem palavras tomara do vinho aos goles ainda no gargalo, cuspira na comida e jogara, puxando a toalha, tudo ao chão.

A empurra pelas costas fazendo com que debruce sobre a mesa, arranca-lhe a calcinha com brutalidade. Come-lhe o cu e sai ainda ajeitando o membro, agora flácido, nas calças.

Havia pensado em tudo, mas não tinha braços e, portanto, não haveria de ter um último gesto, o gesto de adeus.
 
Luli é uma amiga que ganhei de presente do Monólogos na Madrugada. Temos tanta coisa em comum que as vezes escrevemos, no mesmo dia, coisas semelhantes em nossos blogs. Se já era uma delícia ter a companhia de Luli nas minhas madrugadas virtuais, foi melhor ainda conhecê-la pessoalmente, primeiro nas minhas apresentações depois numa farrinha boa que fizemos. Ela me prestigia desde Tempête e conheceu Odete e Judite. E me escreve coisas lindas. E agora está aqui me presenteando com este microconto surpreendente.
 
Visitem seu blog que tem coisas lindas: http://aindaconto.blogspot.com/

domingo, 29 de agosto de 2010

Entrevista com Dourival Junior



Pensando numa segunda-feira de muito trabalho, trânsito infernal em todos os horários, publico a entrevista de Junior que fala da intolerância, irritabilidade e estupidez daqueles que usam seus automóveis como armas.

Junior é uma das pessoas mais gentis que eu conheço, entrou para a nossa família, nos deu o maior presente de todos e foi um dos primeiros entrevistados para o projeto.

Ai Nego, tomara que seu pedido de tolerância seja ouvido por todos!

sábado, 28 de agosto de 2010

Minhas tuas cascas

não é o meu corpo apenas a casca (?) minhas cascas... uma banana! meu sorriso minha visão de mundo meus medos meus invólucros segunda pele um calo uma casca uma cápsula protetora* meus automóveis minhas janelas a porta do meu quarto meu lençol meus copos de caipirinha minha cadeira meu computador as televisões meus ídolos meus amigos minha arrogância minha estupidez meu café com leite as caspas meu suor meus óculos escuros cascas para os olhos as cuecas as calcinhas a camisinha a vagina o cu a boca as mãos em conchas as conchas o caracol a barata o caranguejo o jabuti os livros cascas das palavras os cabelos os revólveres minhas roupas meu guarda-roupa o guarda-chuva protetor solar meu all star minha bolsa carteira casca para o dinheiro o dinheiro a terra casca da raiz a mangatangerinalimãotamarindo....... meus cachorros bichos de estimação cascas da solidão minhas lágrimas meus gritos meus tapas meus abraços os beijos o amor casca

* trecho da música Esquadros de Adriana Calcanhoto
** Me interessa saber quais as suas cascas

Programação 1º Encontro de Dança Inclusiva. O que é isso?


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Escoliose - Minha coluna em S




As curvas da minha coluna sempre foram motivo de curiosidade e interesse para mim. Logo quando pensei no projeto O Corpo Perturbador, desejei utilizar minha coluna, aliás, lembro que desde Judite eu tive vontade de utilizar os movimentos das costas tortas e por isso usei a cadeira de rodas sem encosto, mas depois as coisas tomaram seu rumo e acabei não usando essa idéia. Tempos depois ela voltou inserida na proposta do Corpo e acho que será melhor explorada. Tudo no seu tempo de maturação.

Sempre leio o blog de Wagner Schwartz e em 2008 encontrei esse texto que me despertou a atenção:

Hubert Godard, comenta ter verificado em seu trabalho o quanto a torção das costas em pessoas que sofrem de escoliose, por exemplo, freqüentemente acontece antes em seu modo de perceber o espaço: é como se o corpo não pudesse projetar-se para um dos lados do mesmo. É isto que acaba provocando uma torção da própria coluna vertebral e de toda a musculatura dorsal que a envolve. (suely rolnik em "uma terapeutica para tempos desprovidos de poesia").


Organizamos o primeiro Papo Perturbador, no último dia 13, falando sobre a escoliose, tendo como convidada a fisioterapeuta Raynice Pereira que deu uma grande contribuição a pesquisa. Essas fotos de abertura do post foram selecionadas por ela.
 
Aqui, transcrevo algumas partes de sua palestra:
 
A escoliose é uma deformação morfológica da coluna vertebral nos três planos do espaço (Souchard e Ollier, 2001). Assim, a coluna realmente se torce, não somente para os lados, mas para frente e para trás e em volta do seu próprio eixo. Essa torção em maiores graus determina a gravidade da escoliose e a forma de ser tratada.
 
Classificação da escoliose quanto a forma da curva: curva simples, sendo esta à direita ou à esquerda (escoliose em C); Curva dupla (escoliose em S). Lembrando que a direção da curva é sempre identificada ela convexidade da coluna.
 
As causas da escoliose podem ser:
- Idiopática: causa desconhecida (70% dos casos)
- Neuromuscular: sequela de doenças neurológicas, como por exemplo poliomielite (meu caso), paralisia cerebral.
- Congênita: oriunda de uma má-formação
- Pós-traumática
 
O tratamento das escolioses baseia-se, dentre outros fatores, na idade, na flexibilidade, na gravidade da curva e na sua etiologia, compreendendo a correção das deformidades com tratamento conservador, que inclui fisioterapia e utilização de coletes, adaptação de palmilhas posturais que incrementam a eficácia e o tempo do tratamento (Podoposturologia) ou o tratamento cirúrgico (Tribastone, 2001).
 
 
 
Foto de Débora Motta
 
 

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Movimentocontrapartida

Terça-feira, 24 de Agosto de 2010


Queridos amigos,

Nesse último mês, recusei a pré-estreia de minha última criação, “Piranha”, no Fórum Internacional de Dança FID (Belo Horizonte) e Panorama Festival (Rio de Janeiro). Esses dois festivais fazem parte do Circuito Brasileiro de Festivais Internacionais de Dança (FID, Panorama Festival, Bienal do Ceará e Festival do Recife).

A ideia de recusar o convite foi devido ao cachê que ambos estavam oferecendo: R$ 2.500,00, por apresentação. Levantei a proposta de R$ 5.000,00, por apresentação. Aleguei que, se eu aceitasse as condições de trabalho oferecidas pelos festivais, elas iriam afetar, de forma depreciativa, as mesmas condições que não cabem no meu discurso enquanto artista. E acrescentei que não iria vender minha apresentação por um cachê que representa a insatisfação de muitos.

Como sou um dos contemplados com a bolsa Rumos Itaú Cultural Dança 2010, quem iria financiar a minha ida aos festivais seria o instituto. Nesse caso, eu poderia ter, ainda, um desconto de 26% sobre o valor indicado acima, ou caso eu conseguisse ser representado pelo Núcleo Corpo Rastreado (com o qual eu trabalho), o desconto na nota fiscal poderia chegar à 10%. Então, ou eu receberia um cachê em torno de R$ 1.850,00 ou, no mais possível, R$ 2.250,00 pela estreia/apresentação de meu trabalho. Quando questionei o porquê desse valor, foi me dada a resposta que ele foi determinado por uma "política de cachês do circuito", que essas seriam as "condições oferecidas pelos festivais" e que "5.000 reais por uma apresentação de solo no Brasil não existe".

Levado por uma vontade de problematizar esta situação, resolvi escrever para vocês uma outra história:

No início deste mês, em São Paulo, o Panorama SESI de Dança, com a curadoria de Christine Greiner e Gabi Gonçalves deu vida a uma proposta de pensamento de festivais um pouco diferenciada. Ao invés de levar em consideração as condições de funcionamento de um festival, ele optou por considerar as condições de trabalho e necessidades ideológicas dos artistas. O festival optou pela apresentação de repertórios e não somente por estreias (aumentando a durabilidade do pensamento artístico) e o cachê foi adequado e discutido em conjunto: O mínimo (para um solo) era R$ 5.000,00 (líquido). O festival contava com R$ 265.000,00 para sua produção.

Além das questões de utilização de materiais importantes como a discussão de curadoria em conjunto, Christine criou uma resenha para cada um dos trabalhos apresentados, através de entrevista com os artistas (repensando o lugar do ‘release’). As propostas de funcionamento do Panorama SESI de Dança se chocaram com esse local da institucionalização do pensamento artístico e se colocaram em um ambiente de observação: será que não seria esse o lugar possível de se executar uma experiência artística?

Dentro desses modelos existentes, vejo que cada qual opera do seu jeito, mas qual seria o modelo com o qual nós nos identificamos? E, se há alguma coisa para mudar nessa história, acredito que seja a nossa própria atitude. Pelo jeito, as coisas possíveis estão ao nosso alcance e precisamos entender que estamos ora nos vitimizando pela impotência e medo, ora nos deixando levar pela ideia de que algo possa mudar sem ação em conjunto.

Na realidade, o que gostaria com essa carta, é convidá-los a pensar em nossa política de cachês, em nossa forma de se fazer visível. Se existe uma possibilidade de transformação, ela não virá do que já se construiu enquanto potência, mas terá que ser objeto de um pensamento menos global e mais localizado, ou seja, feito por nós.

Prá isso, estou criando juntamente com Eduardo Bernardt e Maurício Leonard um site/blog http://www.movimentocontrapartida.com/ para aqueles que se sintam interessados por essa ação. Caso você queira participar, basta enviar uma mensagem para movimentocontrapartida@gmail.com que você se tornará colaborador do movimento. Desta forma, estaremos discutindo o que nos preocupa de forma que qualquer pessoa poderá ler e participar.

Relembrando que não é um desejo que nos debrucemos sobre o que já existe: os festivais e suas leis, mas que reavaliemos os sistemas de convívio que nós mesmo construímos. Se existe uma economia da dança, ela pode começar por aqui.

Com carinho,

Wagner Schwartz

sábado, 21 de agosto de 2010

O pé da Cinderela - Microconto devotee


Era final de balada n'A Loca da paulicéia desvairada. Corri pro Vegas com uma turma, mas acabei sozinho na boate porque estava com planos para a minha vida: um rapaz lindo, com seus olhos azuis e boca vermelha e carnuda. Roubou meu chapéu alemão sem se despedir de mim. Fui ao bar pegar a oitava Cuba e caçar outra boca para a minha insaciável. Avistei num sofazinho do canto um outro olhar fixo em mim e um sorriso que fingia timidez e conquista. Me aproximei também com meu sorriso de conquista. Ofereci a bebida e ele me bebeu.

Segurava com prazer as minhas pernas e tirou o meu sapato para sentir os meus pés pequenos em suas mãos. Já estávamos agora no quarto do hotel onde ele estava hospedado. Esfregava com volúpia meus pés no seu pau, seu peito, sua boca. Sentou-se na minha cadeira de rodas e me sentou no seu colo.

A noite acabou num dia lindo, ensolarado e eu com sorriso dourado olhando aquele povo que saía para o trabalho não me dei conta que estava apenas com o pé esquerdo do sapato. Uma cinderela sem saber sequer o nome dos príncipes ladrões.

* Resolvi escrever também um microconto devotee. Este é uma homenagem a São Paulo, a boate A Louca, Vegas e a tanta gente que passou por mim nesses lugares.