O tempo passa voando. Já fazem oito anos que criei essa performance, recém chegado de Londres, na temporada que passei com a Candoco Dance Company. Arthur Scovino estava com a exposição “Levando os elepês de Gal para passear”, na galeria ACBEU e me convidou para fazer uma performance porque estava recebendo artistas amigos na exposição.
A data da minha apresentação coincidia com o aniversário de Malu Mader (hoje) e pensando na homenagem que Arthur fazia a Gal, com sua performance e depois exposição que falava muito mais do que simplesmente uma homenagem a um ídolo. Na ocasião, pensei em “fugir” do tema Gal e fui pensando pelo lado do que aquele sentimento por alguém responsável por parte da nossa subjetividade, por alguém que nos inspira, o que aquela festa que eu oferecia a Malu falava também da minha vida, das minhas conquistas (eu tinha acabado de realizar o sonho de trabalhar com a companhia inglesa e Malu havia gravado o audiobook de Judite).
Mais do que a Malu, eu festejava - sem tanta consciência - o que a vida me oferecia… sonhos como brigadeiros numa Festa do (meu) Interior. “A vida é para fora… A vida é para dentro…”
Você, talvez, não saiba, mas eu já morri mais de 100 mil vezes e continuo morrendo. Muitas pessoas me mataram e continuam matando, diariamente, sem sossego, sem um minuto de paz. Eu falo como pessoa com deficiência. A história comprova, não é preciso muito esforço para saber dos abismos da Grécia antiga, das comunidades indígenas que nos enterram vivos, da Inquisição que nos queimava para pagar o pecado que nosso corpo carrega, do abandono em manicômios, da esterilização para não procriarmos, do projeto eugenista, do holocausto nazista, do Holocausto brasileiro, do silenciamento, da invisibilidade, da negação dos nossos direitos e acesso à educação, comida, cultura, saúde, lazer, trabalho, salário… Das condições de miserabilidade que a maioria de nós enfrenta. Do apagamento e não reconhecimento das nossas capacidades, contribuições que damos para diversas áreas, das nossas ausências em espaços de decisão e poder, na política. Das agressões domésticas, dos abusos sexuais, das estatísticas de violência alarmantes que sofremos sistematicamente.
A História parece distante, mas - talvez - você também não saiba que a História é agora, nós somos parte dela e a constituímos. Não é algo fora, tecemos sua trama em continuidade absoluta. É importante olharmos para o que nossos ancestrais viveram, criticar a narrativa construída por pessoas brancas-cisgêneras-heterossexuais-bípedes, mas prestar atenção nas brechas do que nos contam porque se parece estarrecedor o que desejaram revelar, imagine o que ficou escondido?
Estamos em meio a uma pandemia que assola o mundo inteiro. Aqui, no Brasil, já morreram mais de 100 mil pessoas. Algumas respeitam o isolamento imposto para controle de contágios da Covid 19, mas outras tantas não suportam sua própria companhia e continuam vivendo como uma Sessão da Tarde “Curtindo a vida a adoidado” e se lixem as pessoas que precisam, de fato, sair para trabalhar. Se lixem as famílias que perderam seus entes, se lixem os mortos que já estão mortos mesmo, mas eu preciso ver o mar, dar parabéns a meu pai, visitar aquela amiga, tomar uma cervejinha escondido num bar de portas fechadas, queimar uma caninha com poucas pessoas, correr na orla porque isso também é cuidar da saúde… é tudo tão rapidinho, em horário que não tinha quase ninguém na rua. Por que a sua urgência - nem tão urgente assim - é mais importante do que a do outro que você critica julgando o comportamento do gado, do presidente, seus projetos descabidos para não controle das mortes? Você acredita que você contribui para tantas mortes? Não, ne? Deve ser exagero meu, afinal, você só está matando aquela vontadezinha rápida.
Sim! Deve ser exagero meu. Eu que estou desde 12 de março confinado a um quadrado de colchão sem perspectiva de poder matar minhas vontades e, talvez, morra por aqui mesmo diante de tanta gente que pode exercer seus desejos num momento de tragédia. Sem o mínimo remorso.
Recentemente, foi aniversário de meu sobrinho e eu cancelei uma operação de guerra que faria para tentar estar com ele durante 5 minutos, vendo de dentro do carro. Para mim, é impossível matar minhas vontades pq a cadeira de rodas só funciona numa relação direta com as minhas mãos que precisam pegar onde ela vai passando. No dia seguinte ao seu aniversário, meu sobrinho e minha irmã vieram nos ver e não passaram da porta pq temos uma mãe/vó idosa e eles podem matá-la se for contaminada, além de mim que também posso morrer por sua causa, pois também preciso comer, tomar remédios e as compras chegam em casa. Com a cidade cheia, alguma coisa pode chegar contaminada e ai, “adios, amor, yo vou partir, desta vez para sempre”… Fico desesperado qdo vejo vcs felizes exercendo suas vontades pq isso significa mais tempo eu num canto de colchão. Desculpe o desabafo, mas acho que não estamos em tempo de festejar.
Você compreende que a abertura do comércio, dos bares, shoppings, academias, das ruas, enfim… é uma determinação do mercado? A pandemia não acabou e está se agravando e eles não estão preocupados com nossa vida. Você, inclusive, segue bem o script que eles roteirizam para seguirmos. Deve ser isso o que vocês chamam de “novo normal”. Não é porque o governo determinou abrir que você é obrigado a sair. Sua obrigação é cuidar para que profissionais da saúde, da limpeza, do transporte público e dos serviços essenciais não morram porque você não suportou ficar em casa, nesse isolamento que nós - pessoas com deficiência - conhecemos desde antes da História começar a ser contada. Dessa morte que alguém nos impõe incessantemente.
Você, talvez, se pergunte: o que eu tenho a ver com isso? Você quer mesmo que eu te responda?
#pracegover A cor do video já está desbotada, sépia, assim como a minha graça, meu encanto, o brilho dos meus olhos. Trancado no meu quarto, desde Março, visto uma camiseta listrada. Além de meu marido e minha mãe que me acompanham nesse isolamento, pesam nas minhas costas a companhia de coisas: livros, objetos variados, imagens de orixás e santos. Atanael Weber, no canto inferior direito, de camiseta vermelha, me auxilia para ampliar o que eu quero gritar ao mundo fazendo Libras.
Você, talvez, não se dê conta, mas você é bípede. Sim, se você não possui nenhuma deficiência e é parte da categoria de pessoas construídas dentro de padrões normativos de corpo que consideram as experiências da deficiência como patologia; se nos olha com sentimento de pena, compaixão, coitadinho; se considera a pessoa com deficiência menos capaz, menos bela e improdutiva; se considera a deficiência como se fosse uma experiência única que se repete da mesma maneira para todas as pessoas e desconsidera a grande diversidade das deficiências e suas especificidades, além dos contextos pessoais, você é bípede. Se a sua inclusão quiser nos colocar nos cercadinhos específicos que mais excluem, sim, você é bípede. Se entende que o corpo sem deficiência é a única possibilidade de normalidade, sem dúvida, você é bípede.
Deixa eu te explicar logo que a bipedia, na minha perspectiva, é essa estrutura sócio-economica-cultural-política que determina o que é normal e o que é anormal, capaz e incapaz. O que apresento como bipedia não se trata da maneira de andar, é sobre o sistema de opressão pautado numa construção também histórica da normalidade, assim como é construída a ideia de deficiência.
Por exemplo, eu vou falar da Dança porque é minha área de atuação, mas faça um esforço e pense a partir do seu contexto. Você é bípede se a sua Dança desconsidera as possibilidades de diversos corpos e não se dá conta das limitações da própria bipedia que ao longo do tempo repete tantos clichês de uma verticalidade e virtuose tão redutoras sobre o que é dança e corpo; se nas suas escolhas estéticas, artísticas e, portanto, políticas, você mantém e reproduz espaços de invisibilidade e não reconhecimento da produção de artistas com deficiência; se na sua curadoria você não se dá conta de que o tema secular da Dança é o corpo branco-cisgênero-bípede que você teima em perpetuar na programação de seus festivais, bienais, eventos e não faz a mínima questão de romper com esse padrão e ainda nos mantém nas atividades extras, nas suas ações formativas que você nem participa e nas mesas de debate como um assunto que você também não quer ouvir; se em suas aulas você nem pensa nas pessoas com deficiência e quando aparece alguma ela que se vire porque “meu grand jeté é lindo demais para eu não mostrar”; se na sua produção você não se importa com a acessibilidade e até descumpre o que determinam as Leis brasileiras se justificando com falta de verba, mas também não luta para que os espaços culturais se responsabilizem com os equipamentos ou haja nos orçamentos dos editais ou ferramentas de fomento à cultura uma rubrica, específica, destinada à acessibilidade para todos os projetos. Você sequer pensa nisso e, no fundo, acha muito trabalhoso; se você for jornalista, continua insistindo no tom sensacionalista em matérias que nos tratam como nos antigos freak shows. Você entende? O pensamento bípede está em todo canto, domina todos os espaços e nos invisibiliza, nos recusa.
O que falar então das suas novelas contando a vida da classe média branca bipede brasileira tão monotemáticas e enfadonhas sobre romances que você supõe que eu nunca poderei viver? Ou seus filmes, seu teatro, seus musicais que nunca nos representam. Posso te contar? Quando eu era criança sonhava em ser o protagonista da novela das oito, a TV era minha única referência no interior da Bahia, eu vivia sempre no mundo da lua com Emilia, o Saci e a Cuca… chegava até a contracenar, em casa, com Fernanda Montenegro, Malu Mader, Lidia Brondi… Mas eu não me via e ainda não me vejo nas telinhas, telonas, no seu palco tão bípede. Por isso decidi fazer Belas Artes na UFBA para tentar me manter artista como eu sempre soube que era. Depois, fiz umas aulas na Escola de Teatro e acabei na Dança onde estou há 22 anos, mas isso é uma longa história que posso te contar depois. Você, talvez, nem se interesse.
Eu queria mesmo entender quando você pensa em Dança, qual o corpo pode dançar a sua Dança? Quem pode fazer a tua arte? Quem pode assisti-la? Se todo corpo é a própria pessoa, pois não existe corpo isolado da pessoa, que pessoas cabem na sua caixinha? Quem você deixa fora? O que você pensa sobre deficiência? Quais as palavras você associa à deficiência? E quando pensa na relação Dança e Deficiência ou Arte e Deficiência, quais as imagens que surgem? Que referências você tem sobre o tema? E se você não tem nenhuma referência ou segue o senso comum, como se arvora a julgar nossa competência e produção? Você, provavelmente, nem conhece Estela Lapponi, Cia Gira Dança, Moira Braga, Mickaella Dantas, Dave Toole, Annie Hanauer, Dan Daw, Claire Cunningham, Carolina Teixeira, Natalia Rocha, Leo Castilho, João Paulo Lima, Jéssica Teixeira, Candoco Dance Company, entre tantos outros. Você sabe tão pouco sobre tanta coisa! Só para te lembrar, bípede, Frida Kahlo, Stephen Hawking, Franklin Roosevelt eram def. Pasme, bípede, mas o REI da música brasileira é def, sabia? Talvez, se ele tivesse assumido de fato essa característica você não o considerasse tão rei assim, não é? Espero não ter te decepcionado, mas no nosso caso, somos reis e rainhas que sempre estamos nus. Vocês nos olham e só enxergam o que acham ou querem achar sobre nossos corpos. Sobre nós.
O buraco é mais embaixo... e as rodas da minha cadeira não conseguem atravessar. Vocês sempre criam buracos para eu não me aproximar tanto de vcs. Vai que a deficiência pega, ne?! Aliás, o buraco é mais em cima, abissal, como diz Boaventura de Sousa Santos, estabelecendo quem pertence e quem não pertence a um determinado lado da linha que vocês inventaram para criar hierarquias e espaços de poder sobre quem está autorizado a falar e quem deve silenciar ao longo da vida, subjugado às suas ordens. Você, bípede, nos prende no quartinho dos fundos para esconder aquilo que revelamos sobre vocês mesmos. Vocês tem medo de nós.
Vou te contar uma história que li no livro Holocausto brasileiro - Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil, de Daniela Arbex. Antônio foi internado no manicômio de Barbacena e passou vinte e um anos em total silêncio, era considerado mudo pelos funcionários do local. Um dia, Antonio soltou a voz ao ouvir uma banda de música. Todos se espantaram e perguntaram porque ele não tinha informado que falava. Ele, então, responde: uai, ninguém nunca perguntou.
Pois bem, vocês também nunca me perguntaram, mas eu não silencio e repito incansavelmente: VOCÊS, BÍPEDES, ME CANSAM!
Sem dúvida não conseguimos desconstruir e destruir estruturas tão fixas assim. O pensamento bípede é da nossa estrutura social, molda e limita a compreensão de corpo e de mundo que anula qualquer experiência fora do que é considerado normal. Essa normalidade não existe, bípede. Acredite em mim! Repense, reveja, mude esses conceitos. Não dá mais para você continuar vivendo montado em tantos privilégios. Sabe por que? Eu percebo um vento que vem de longe para soprar - quem sabe - alguma mudança. Nós - pessoas com deficiência - estamos ocupando espaços, furando algumas bolhas. É da ordem do existir mudarmos quando entramos em contato com o outro, nos perturbamos com o desconhecido ou, nesse caso, nem tão desconhecido assim, mas justamente por ser tão conhecido nem nos damos conta. O encontro… o contato… transformam.
Agora, falo aos meus pares, esses “corpos intrusos”, como diz Lapponi, que chegam sem pedir licença, invadem onde não foram historicamente chamados e rompem tudo desde a arquitetura até as atitudes, a comunicação, a tecnologia… “corpos intrusos” que instigam, incomodam, coçam o meio das costas, furando essas bolhas para afirmar o que somos e rejeitar padrões impostos. Jamais esquecer de que quando entramos nos espaços os transformamos. Experiência vivida não se apaga. Ninguém fala por ninguém, ninguém fala por nós, mas podemos compreender o universo do outro e tentar criar junto com ele. Lembremos sempre do que Djavan canta: “voar… é do homem”.
Eu te escrevo, bípede, não para aumentar os abismos que tantas vezes vocês nos jogaram desde a Grécia antiga, mas para criarmos pontes, para vocês se darem conta das violências que provocam cotidianamente, até mesmo no tratamento que pensam ser carinhoso, mas vem carregado de compaixão, pena. Eu sei, alguns de vocês nem sabem.
Mas, olha, se já havia passado da hora da mudança, não será este o momento para transformarmos nossos hábitos de consumo, romper padrões que criamos, repetimos e nos determinam o que é belo, o que é produtivo e capaz? Quando sairmos desse isolamento que vocês bípedes estão achando uma novidade, mas que para nós - pessoas com deficiência - é uma condição imposta rotineiramente pela falta de acessibilidade e oportunidades, o que vai importar? Quais vidas importam? Umas mais outras menos?
Você até aparece defendendo causas com certa visibilidade, mas quando te chamamos para falar sobre nós, você se esquiva, diz que está muito ocupado, sem tempo e sem dinheiro. Na verdade você nem lembra da nossa existência. Na sua luta anti qualquer coisa e em defesa da vida, você pensa na vida da pessoa com deficiência? Se não, bípede, me desculpe te desapontar, mas eu não acredito na sua luta. Sabe por que?
Porque o corpo com deficiência é futuro. Tenho repetido isso incansavelmente. A experiência da deficiência é um porvir constante para qualquer pessoa sejam mulheres, homens, negras, indígenas, transsexuais, cisgêneras, gays, lésbicas, assexuadas… se não por alguma surpresa do destino, pela própria vida. Sim, quando envelhecemos é porque nos mantemos vivos e o envelhecimento é companheiro da deficiência. Entender o corpo com deficiência como futuro é pensar na contribuição que estudos da deficiência tem trazido para diversas áreas da ciência, desde estudos da medicina, quanto robótica, tecnologia, comunicação, artes… enfim, pensar por outra via, pensar dialogicamente, desconstruindo uma perspectiva de subalternidade da deficiência. Se todo mundo pode vir a ter deficiência, não seria melhor construirmos um mundo a partir dessa realidade?
Pelo futuro que já é agora, desejo que nós, pessoas com deficiência, ocupemos espaços de visibilidade porque somos multidão. Tentar quebrar as barreiras impostas pela normatividade deve ser o que nos faz mover e mostrar essa história ainda pouco contada e quase nada acessada por grande parte das pessoas. Para mim, isso é o que me faz existir nesse passado-presente-futuro-AQUI
Até breve,
Edu O.
Edu O. é artista da dança, performer, professor da Escola de Dança da UFBA, mestre em Dança, cadeirante, gosta de escrever e criar conteúdos no seu Instagram @eduimpro alertando para as exclusões e violências provocadas pela bipedia compulsória, termo que desenvolve - atualmente - no Doutorado Multiinstitucional e Muldisciplinar em Difusão do Conhecimento.
Você, talvez, não se dê conta, mas você é um bípede. Sim, se você não possui nenhuma deficiência e é parte da categoria de pessoas construídas dentro de padrões normativos de corpo que consideram as experiências da deficiência como patologia, com sentimento de pena, compaixão, se considera a pessoa com deficiência menos capaz, menos bela, improdutiva. se considera a deficiência como se fosse uma experiência única que se repete da mesma maneira para todas as pessoas, mas desconsidera a grande diversidade das deficiências e suas especificidades, além dos contextos pessoais. Se a sua inclusão quiser nos colocar nos cercadinhos específicos que mais excluem, sim, você é bípede. Se entende que o corpo sem deficiência é a única possibilidade de normalidade, sem dúvida, você é bípede.
Você é bípede, se a sua Dança desconsidera as possibilidades de diversos corpos e não se dá conta das limitações da própria bipedia (essa estrutura socio-economica-cultural-política que determina o que é normal e o que é anormal. Já entendemos que a minha abordagem da bipedia não se trata da maneira de se deslocar), se nas suas escolhas estéticas, artísticas e, portanto, políticas, você mantém e reproduz espaços de invisibilidade e não reconhecimento da produção de artistas com deficiência, se na sua curadoria você não se dá conta de que o tema secular da Dança é o corpo branco-cisgênero-bípede e não faz a mínima questão de transformar isso e nos mantém na programação como extras, se em suas aulas você nem pensa nas pessoas com deficiência e se aparecer alguma elas que se virem porque “seu grand jeté é lindo demais para não mostrar”…
Sem dúvida não conseguimos desconstruir e destruir estruturas tão fixas assim, mas o fato de vocês terem nos acompanhado e suportado tantas provocações, já indica um vento que vem de longe para soprar - quem sabe - alguma mudança. Nós mudamos quando entramos em contato com o outro, nos perturbamos com o desconhecido ou de tão conhecido nem nos damos conta. O encontro, o contato transforma.
Durante essa semana entendemos juntos, esse corpo intruso que nos instiga, coça o meio das costas, essas bolhas que furamos para afirmar o que somos e rejeitar padrões impostos. Jamais esquecer de que quando entramos nos espaços os transformamos. Experiência vivida não se apaga. Ninguém fala por ninguém, mas podemos compreender o universo do outro e tentar criar junto com ele. Hoje, saberemos que voar… é do homem! (Djvan)
Se já havia passado da hora da mudança, não será este o momento para transformarmos nossos hábitos de consumo, romper padrões que criamos, repetimos e nos determinam o que é belo, o que é produtivo e capaz? Quando sairmos desse isolamento que vocês bípedes estão experimentando pela primeira vez, mas que para nós - pessoas com deficiência - é uma condição imposta pela falta de acessibilidade e oportunidades, o que vai importar? Quais vidas importam? Umas mais outras menos?
O corpo com deficiência é futuro. Tenho repetido isso incansavelmente. A experiência da deficiência é um porvir constante, se não por alguma surpresa do destino, pela própria vida. Sim, quando envelhecemos é porque nos mantemos vivos e o envelhecimento é companheiro da deficiência. Se você tem problemas com a velhice, não seria esse também o momento de pensa-la como vida?
Pelo futuro que já é agora, eu quero agradecer a companhia de vocês durante essa semana.
Ocupar espaços de visibilidade, me entender parte de uma multidão e tentar quebrar as barreiras impostas pela normatividade, me movem e me fazem existir e, mesmo com toda insegurança, a aceitar o que nem me era tão confortável como fazer lives. Mas vocês me colocaram no colo e me fizeram acreditar que estavam aqui comigo, neste sofá cinza.
Estar acompanhado de Estela Lapponi, Alexandre Américo, Moira Braga, Clarissa Costa e Mickaella Dantas foi uma estratégia que encontrei em fazer ecoar reflexões e discussões que venho alimentando há muito tempo, buscando não centralizar o discurso, não personalizar essa história ainda pouco contada e quase nada acessada por grande parte das pessoas. Pensar num panorama, ainda que restrito, que reflita essas questões diante de realidades variadas e da diversidade que nos constitui nos diversos pontos do país. Esse passado-presente-futuro AQUI.
Sentirei saudade, mas estarei logo ali do lado, no insta @eduimpro, caso queiram continuar de mãos dadas.
Fui convidado pelo Centro Cultural São Paulo a ministrar, a partir de segunda (15/06) até sexta (19/06), das 10h às 11h, um curso sobre Dança e Deficiência, transmitido no Instagram do próprio CCSP - @ccsp_oficial. Para quem se interessar, o curso apresenta a relação entre dança e deficiência, buscando refletir como se deu este encontro e como, a partir da década de 1990, essa relação se fortaleceu. Apresentarei também minha pesquisa de doutorado e receberei alguns convidados para conversarmos sobre processo de criação, profissionalização, metodologias, também sobre ferramentas de acessibilidade como disparadores para a criação em dança. Estarão comigo: Estela Lapponi/SP, Alexandre Américo-Cia Gira Dança/RN, Moira Braga/RJ, Clarissa Costa-Dança Libras/CE e Mickaella Dantas/RN. Juntas somos mais fortes. Apareçam e ajudem a divulgar, por favor. Muito obrigado! Bom final de semana.
#PraCegoVer: Foto de um homem vestido de preto, sentado em um chão de paralelepípedo e com uma das mãos na cabeça careca. Ele tem barba grisalha, está maquiado. Dividindo a imagem, do lado direito, uma coluna laranja com letras brancas escrito: Live Workshop Dança e Deficiência com Edu O. 15 a 19/06 (segunda a sexta), às 10h, No Instagram @ccsp_oficial. Abaixo, canto inferior direito logomarcas São Paulo capital da cultura e Cidade de São Paulo Cultura. Fim da descrição
A primeira vez que entrei num Quarto Escuro, me trataram como monstro. Eu estava carregado nas costas de um amigo e as pessoas nos pegavam sem entender o que era aquilo: duas cabeças, quatro bundas, o pau que era um pé calçado... Ao longo da vida, minha sexualidade foi tratada como inexistente. Meu corpo não provocava desejo, eu não sentia desejo... No período que compreendi por quem meu desejo batia mais forte, comecei a ficar com muitos homens, contrariando aquela expectativa do meu corpo não ser desejado. Um dia, eu soube que havia umas pessoas que sentiam tesão, justamente, na minha perna fina, na minha escoliose, na cadeira de rodas. E eu achei isso o máximo! Há dez anos, eu criei um projeto que tratava sobre isso. Agora, juntei uma galera para falarmos sobre desejo, corpo... sobre o que se revela num Quarto Escuro. Sabendo que, ali, naquele espaço, o que não pode ser anunciado como desejável, se esconde na escuridão e todos passam a mão, metem a boca e saem como quem não existe. O que existe num Quarto Escuro? O que esse processo me revelou a mim mesmo?
Nessa quarta-feira, 12/06, o projeto Quarto Escuro recebe “Nus e [des]graçados”, performance de Edu O. e Estela Lapponi, 19h, $10,00, no Teatro do Movimento da Escola de Dança da UFBA.
Quarto Escuro é parte do projeto "O Bicho, O Amigo e O Santo: olhares sobre corpos destoantes", coordenado por Edu O., aprovado pelo Edital PIBIArtes 2018-2019 da PROEXT/UFBA que propõe investigação acerca do corpo com deficiência na relação com a sexualidade, estruturas de poder e desejo, ressignificando os padrões hegemônicos na Dança.
Acompanham esse processo: Natalia Rocha, William Gomes, Thiago Cohen, Junior Oliveira, Kiran Gorki, Aldren Lincoln, Gabriel Sousa Domingues e Estela Lapponi.
Durante toda minha infância e adolescência, eu só convivi com bípedes e a Bipedia (junto com a Branquitude e a Heterossexualidade), como vocês sabem melhor do que eu - ou não, só entende o belo, o desejo, o corpo, a partir de sua perspectiva que mais tarde eu compreendi como bastante limitada. E ainda dizem que quem tem limitações somos nós!
Voltando ao início desse texto, como eu não me encontrava com nenhum par, eu construí um imaginário de corpo belo e desejável a partir da lógica bípede. Claro que eu não me encontrava ali. Então, cobria (ainda cubro) minhas pernas com calças longas. Quando minha coluna começou a entortar eu não queria expor minha escoliose, minha barriga lateral, como chamo...
Quando me compreendi gay, as coisas mudaram um pouco e tive relacionamentos, pegas, pegações de maneira mais constante (não é porque ficavam comigo que eram devotees, viu? não deturpem minhas palavras). Porém, eu ainda não me entendia belo, eu ainda queria me trancar num quarto escuro onde meu corpo não fosse visto. Eu já transei de calça para a pessoa não ver minha perna. Observem as violências que sofremos com os padrões bípedes.
Mas foi ao ouvir sobre os devotees que eu transformei o olhar sobre meu corpo. Devotee é a pessoa que sente atração pela deficiência. Descobrir isso mudou uma chave que eu tinha da negação. Eu comecei a enxergar meu corpo pela perspectiva de quem se interessa por ele, deseja o que é indesejável nos padrões hegemônicos. Claro que nessa relação existem inúmeras camadas e nada é só flores, existe violência e subalternização, mas saber que uma parcela da população sente tesão pelo que é rejeitado pelo desejo comum, me trouxe alívio e outra relação com meu corpo.
Além de corpos próximos ao meu, sei que existem outros que também sofrem com essa hegemonia do belo e desejável.
Pensando nessas questões, submeti um projeto no Edital Pibiartes - PROEXT/UFBA e desde o ano passado, estamos investigando artisticamente essas camadas.
Vamos compartilhar como parte desse processo, a performance Nus e [des]graçados, com Edu O. e Estela Lapponi, na próxima quarta-feira (12/06), às 19h, no Teatro do Movimento da Escola de Dança da UFBA, R$ 10,00.
Comigo, ao longo desse ano, estão no processo: Natalia Rocha, William Gomes, Thiago Cohen, Aldren Lincoln, Junior Oliveira, Kiran Gorki, Gabriel Sousa Domingues e Estela Lapponi que veio de SP especialmente para esta apresentação.
Agradecer aos nossos apoiadores: PROEXT/UFBA, Escola de Dança da UFBA, Casa Rosada, Café Confeito e Bagacinho Boteco.
#pracegover Descrição da imagem: Flyer quadrado com fundo preto onde vê-se ao meio sombras de três pessoas à frente de luzes brancas e vermelhas que iluminam parte de um tecido branco. À frente, o peitoral e parte da cabeça e braços de outra pessoa, sem muita nitidez, iluminados por uma luz que vem do chão. No canto esquerdo lê em letras brancas Quarto Escuro. Entre a palavra Escuro uma mancha branca redonda. Abaixo, lê-se 12/06, Teatro do Movimento Escola de Dança. À direita, anuncia-se 19h, $10, classificação indicativa: 18 anos. Uma faixa branca atravessa toda a parte inferior da imagem, divulgando os Apoios: Escola de Danca da UFBA, UFBA, PROEXT, PROEXT e PIBIArtes 2018/2019, Casa Rosada, Café Confeito e Bagacinho Boteco. Fim da descrição