quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Cá estamos

Em Setembro de 2018, anunciamos o início do projeto "O Bicho, O Amigo e O Santo: olhares sobre corpos destoantesaprovado pelo edital PIBIARTES 2018/2019, da UFBA, tendo a participação de Natalia Rocha e William Gomes, artistas-pesquisadores-monitores.

De lá para cá, não compartilhamos mais nada sobre o projeto, embora suas pesquisas tenham continuado e algumas ações realizadas. Acreditamos na importância da visibilidade de projetos que possam contribuir com as discussões e mudança de paradigmas em relação à deficiência, mas não demos conta de atualizar o blog e por isso, nos desculpamos.

Enfim... Cá estamos!

O ano de 2018 foi muito profícuo para as reflexões que pretendemos levantar com essa proposta. Cada integrante trazendo um olhar para nossas questões e desenvolvendo proposições artísticas que se conectavam, visando uma montagem para início do segundo semestre de 2019.

foto Andrea Magnoni

Iniciamos, como exposto anteriormente, com a participação de Edu O. em eventos em Salvador (Ministério Público), Belo Horizonte (UFMG), Festival de Dança de Araraquara, Belém (UFPA)  apresentando a performance Striptease-Bicho e Porto Alegre (Cenas Diversas), fazendo palestras e oficinas, observando em sua trajetória artística os mecanismos de poder identificados na Dança, nos espaços educacionais, culturais, políticos e religiosos. Esses momentos foram muito importantes para a troca junto ao público de diferentes realidades.

William Gomes teve o projeto Audionudescrição aprovado no Edital PIBEXA/PROEXT UFBA, com tutoria de Edu O., trazendo a questão:

Quais relações são possíveis entre nudez e deficiências? Trazendo a relação entre deficientes visuais/auditivos/físicos e a nudez, sob o viés da arte enquanto possibilidade de friccionar hegemonias epistêmicas e dogmas sociais relacionando com práticas de acessibilidade e seus limites.

foto William Gomes

Essa proposta, torinou-se um duo entre William e Edu, e em articulação com os objetivos e propostas do que entendemos como "projeto guarda-chuva" O Bicho, O Amigo e O Santo... guiou todas as ações do semestre, com ensaios, apresentação no Congresso UFBA, oficina no evento Cenas Diversas, em Porto Alegre e no Papo Perturbador, realizado em Dezembro, como previsto no nosso cronograma e parte de uma residência artística entre Edu O., Moira Braga, Natalia Rocha, Lilih Curi e Johsi Varjão (falaremos sobre isso em um post específico).

foto Erve Miozzo


Natalia Rocha desenvolveu o trabalho Corpo Erótico,  em parceria com a artista italiana Laura Dellalonga, investigando o desejo além do corpo com deficiência, sobre o corpo feminino e as relações implicadas nessa articulação.

Logo, logo, vamos falando detalhadamente cobre cada ação desenvolvida.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Manifesto Anti-Inclusão

Manifesto Anti-Inclusão parte_1
escrito por Estela Lapponi:

A Inclusão propõe hierarquia de capacidades.
A Inclusão é incapaz de ver e enxergar.
A Inclusão é incapaz de ouvir e escutar.
A Inclusão é simplesmente incapaz.
A Inclusão pressupõe passividade.
A Inclusão não interage.
A inclusão causa pena
A inclusão é unilateral 
A inclusão exclui
A inclusão isola

Manifesto Anti-Inclusão parte_2
colaboração de Lenira Rengel

Arte é conhecimento
Arte é habilidade
Arte é construção
Arte é diálogo
Arte é investigação
Arte é Ação
Arte é troca
Arte é liberdade
Arte é criação
Arte é expressão
Arte tem de toda pessoa
A inclusão quer te normatizar
A inclusão quer te excepcionalizar
A inclusão quer te paralizar
A inclusão quer te desconsiderar
A inclusão quer te desincorporar
A inclusão quer te ignorar
A inclusão quer te especificar
A inclusão quer te deixar só!

Arte e Inclusão estão na contra mão!
O significado das palavras vão além de sua semântica
Trazem em seu traçado gráfico e sonoro pesos e levezas históricas e arraigadas às mais diversas sociopoliticoculturas
O que quero propor aqui é que R-E-P-E-N-S-E-M-O-S

Sobre o significado e a significância que carregam as palavras Arte e Inclusão ou Arte Inclusiva

Nós perdemos

por Edu O.

NÓS PERDEMOS. Algo não deu certo, não foi bem calculado, não encontramos estratégias que mudassem ou, pelo menos, balançassem as estruturas do status quo”, da normalidade, do pensamento hegemônico. É com imensa tristeza que eu anuncio que NÓS PERDEMOS.

Perdemos porque ainda hoje precisamos discutir sobre inclusão na arte, precisamos brigar para termos algum espaço, para sairmos da invisibilidade que nos impõem nos espaços de saber, nos espaços midiáticos, nos espaços culturais que nos restringem a uma única história.

E a única história, já nos falou Chimamanda Adichie:

"A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos, não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se uma única história". 

NÓS PERDEMOS, amigos! Porque não conseguimos ser vistos para além da deficiência. Não interessa se estudamos, não interessa ser professor na Escola de Dança da UFBA, não interessam as inúmeras experiências que vivemos, as viagens que fizemos, nossa compreensão de mundo, nossos posicionamentos, nada, nada… 

Importa apenas a vaga de empacotador, de telemarketing, de flanelinha na esquina… oportunidade que a “generosidade” bípede nos oferece, sem possibilidade de crescimento profissional. Sem escuta atenta porque "a lei exige que tenha o balcão rebaixado, mas não exige que as máquinas estejam nele”, como disse o gerente de um banco ao ser questionado pelo funcionamento do atendimento acessível que não acontecia de fato porque a máquina para eu digitar a minha senha ficava no balcão mais alto. Importa a arrogância da ignorância dos gestores de espaços culturais que negligenciam a acessibilidade para artistas com deficiência no palco, nos camarins, na reserva de espaços para melhor visibilidade do público. Não importa se aquilo nos constrange, nos humilha, nos violenta.

Não importa quando no meu local de trabalho, por mais solicitação para manterem a entrada acessível em todos os eventos que acontecerem lá, fecham o portão da rampa por questão de segurança e ainda você tem que ter “calmaaaaaa! esses dias a Escola está com problemas”. Para mim "esses dias", são 20 anos que frequento aquele lugar.

Há 20 anos eu me deparei, pela primeira vez com essa noção de Inclusão e foi aí que eu soube que era excluído. Porque em Sto Amaro, cidade pequena do interior da BAhia, sem esse discurso e com todos os problemas de acessibilidade, eu transitava em todos os lugares, mas quando fui para Salvador, com 18 anos e quando eu comecei a Dançar, em 1998, eu ouvi algo como “Dança inclusiva”. Eu pensei, “perai, mas quando eu pinto um quadro, faço uma escultura ou um desenho - eu estudava na Escola de Belas Artes, nessa época - meu trabalho não tem esse complemento de inclusivo. Por que a Dança precisa ter? Precisa destacar uma diferença, sendo que a diferença é o que nos aproxima. Quem aqui é igual a quem? Por que a minha Dança é inclusiva apenas por eu ter uma deficiência? Mas meu corpo possibilita fazer e criar coisas que nenhum outro pode ou consegue, assim como eu não consigo fazer ou criar coisas que outra pessoa consegue. E isso não me torna pior, nem melhor do que ninguém. 

Esse pensamento de INCLUSIVO ou INCLUSÃO, na arte, nos fez perder. Nos isolou.

Por isso que eu repito: NÓS PERDEMOS!

Perdemos quando Estela Laponni lança um filme que traz uma abordagem completamente decolonial do corpo com deficiência, do próprio cinema, introduz a tecnologia assistiva como linguagem no filme e não como acessório e seu filme, como os demais que tratavam no tema da deficiência, é colocado numa mostra “café com leite”no Festival de Curtas de SP, que aconteceu recentemente. Nem a oportunidade de ganhar prêmio essa parte do Festival possibilitava. Por que? Por que nos colocar no “cercadinho da deficiência”? Na “cadeira da reflexão da INCLUSÃO”? Alguém em sã consciência e gozando de plena lucidez, considera isso Inclusão?

Quantas vezes algum artista com deficiência é convidado para Festivais, Congressos, Mesas ou  Eventos que não seja para falar sobre a deficiência? Isso é INCLUSÃO?

Quantas vezes nós já ouvimos: você nem parece deficiente! Ahh, eu olho para você e não vejo a deficiência! como se isso fosse um elogio, como se isso nos agradasse.

Ai, amigos, NÓS PERDEMOS!

Perdemos porque servimos para publicidade de governo se aproveitar da nossa imagem, mas quando acionamos a Justiça para nos defender de abusos e violências, os juízes minimizam nossos problemas que, na maioria das vezes vem de ordem das barreiras atitudinais, e não pune o banco, a delicatessen que não tem acessibilidade e quase permite eu ser atropelado no seu estacionamento, o Ministério Público dizer que não vale a pena brigar com o Estado porque era causa perdida quando se PROCON se recusou a me atender, a justiça diminuir a indenização da TAP por ter quebrado minha cadeira. Perdemos quando preciso implorar para algum Uber ou taxista ou motorista de ônibus parar e levar a cadeira. Mas não interessa se somos nós que ficamos no meio da rua chorando, se perdemos o sono, se adoecemos a cada saída com medo da violência.

No entanto aceitamos todas as migalhas que a INCLUSÃO nos oferece, na esperança ou tentativa de sermos ouvidos, mas sempre ficamos como o pinguim gritando por socorro no aquário, sem ser entendido pela plateia que pensa estar assistindo a um show de fofura do bicho que quer dançar, contrariando as expectativas de sua família - no filme Happy Feet.

A INCLUSÃO comove. A INCLUSÃO é uma fatia de mercado que beneficia todo mundo, menos a pessoa com deficiência. O discurso inclusivo é tão perverso quanto mentiroso. Participar de eventos específicos que normalmente não pagam cachê, não tem estrutura técnica adequada, mas “será bom para divulgar seu trabalho!”. Divulgar a quem? Se nós falamos para nós mesmos? Se quando subimos ao palco, só tem na plateia nossa família chorando porque de alguma forma nós representamos o esforço descomunal que ela faz para sobrevivermos, tem a fisioterapeuta, a diretora da instituição, os funcionários e a professora de Dança que provavelmente não tem formação em Dança e os colegas que aplaudem eufóricos aquela apresentação com música melosa ou religiosa, induzindo à comoção e à visão de superação que o discurso da INCLUSÃO insiste em manter, um figurino mal pensado, de lycra ou malha, maquiagens fortes e movimentos que buscam aproximações com o corpo sem deficiência, o corpo pensado hegemonicamente para a Dança, como se devêssemos provar que conseguimos fazer aquilo.


E eu falo da Dança porque é minha área de atuação, mas é o mesmo para todas as outras áreas. É o mesmo para a vida!

Leo Castilho e Oscar Capucho na performance O Bicho, o Amigo e o Santo
I Encontro Corpos Mistos- II Congresso "Autismo, dança e educação" - UFMG
foto Maria Paula Carvalho

Audiobook Judite quer chorar, mas não consegue!





Na oficina que ministrei no I Encontro Corpos Mistos- II Congresso "Autismo, dança e educação, trabalhamos com o projeto Judite quer chorar, mas não consegue!

Compartilho, aqui, o audiobook de Judite para vocês aproveitarem em suas aulas, curtirem um pouco da história dessa lagarta que me proporciona tantos voos.

Para saberem mais sobre o projeto acessem www.jardimdejudite.com.br

O Bicho, O Amigo e O Santo: olhares sobre corpos destoantes

Stripe-tease Bicho - foto de Rose Nascimento

Iniciamos, em Agosto, as pesquisas para o projeto "O Bicho, O Amigo e O Santo: olhares sobre corpos destoantes" (ainda sem muita segurança e com muitas insatisfações sobre seu nome), aprovado pelo edital PIBIARTES 2018/2019, da UFBA, tendo a participação de Natalia Rocha e William Gomes, artistas-pesquisadores-monitores.

Este projeto é parte da continuação de minhas pesquisas artísticas iniciadas em 2010 com o espetáculo O Corpo Perturbador e seus desdobramentos como as perfomances O Bicho (2014) e Striptease-Bicho (2017) que tem como mote a sexualidade da pessoa com deficiência, a partir do devoteísmo (fetiche pela deficiência) e diante disso, busca refletir como se estabelecem as relações de poder sobre corpos destoantes, percebidas nos ambientes: educacional, cultural, social, político e religioso.

Destoantes foi uma palavra que tentamos associar mais ao desejo do que à própria deficiência, mas ainda não conseguimos resolver questões das palavras que se agregam quando falamos nesses termos.

No entanto, pretendemos ampliar a percepção sobre as possibilidades do corpo com deficiência, dos estados do corpo enquanto ser biológico, cultural, co-autor e responsável pelas coisas do mundo, chamando a atenção de que as convicções que esses corpos não possuem os padrões apropriados para dançar sustentam o apartheid que interdita a possibilidade de construção de conhecimento através da dança que produzem. Porém, na medida em que pensamentos hegemônicos se expandem, incitam também o surgimento de significados, idéias, agrupamentos e rebeliões contraditórias às suas idéias.

Com a participação de estudantes e profissionais de diversas áreas, este projeto de caráter interdisciplinas, configura-se num coletivo em suas múltiplas expressividades, tecido pelo entrelaçamento dos parceiros implicados nas redes criadas pelas experiências artísticas.

Aos poucos vamos conversando mais sobre esses assuntos e queremos muito a sua participação.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MANIFESTO PARA UM CORPO EM ESTADO DE NUDEZ





MANIFESTO PARA UM CORPO EM ESTADO DE
NUDEZ

Nós, da Escola de
Dança da Universidade Federal da Bahia nos declaramos, declamamos, dançamos em
comum à polifonia de atuações, em crítica plena e sistemática às subjetividades,
que se pretendem acima das leis de nosso país.
Características
subjetivas devem se manifestar a todo e qualquer tempo! Sem, todavia, tolher,
execrar, censurar, violar... o que ou quem quer que seja.
A Arte não está
desvinculada da sociedade da qual faz parte e tem o livre direito de expressão,
como toda e qualquer manifestação.
Não podemos aceitar
falsos moralismos.
Não permitamos que
este momento cruel, pleno de repressões subjetivas, nos tornem culpados de algo
que a Arte não é.
Não admitamos as fake news as pós-verdades!
Queremos especificar
nosso lugar de fala e estar em comum ao artista da dança Wagner Miranda
Schwartz.
Afirmamos o seu
estado de nudez como uma única possibilidade para o trabalho apresentado.
Uma nudez como um
figurino.
Uma qualquer
cobertura seria uma hipocrisia!
Não deixemos que uma
pulsão de vida seja tornada uma pulsão de morte!
Não deixemos que o
corpo seja visto como uma arma de violação!
Ataque à rejeição do
corpo!
Amamos o corpo.
Nudez como
conhecimento. É crua, bruta.
Qualquer sexo para a
nudez é possível.
Sexo sem
sexualização.
Uma nudez que cabe.
Uma nudez sem idade,
por isso cabe criança, cabe adolescente, cabe jovem, cabe adulto, cabe idoso.
Uma nudez de relação
entre gerações.
Uma nudez em estado
de ludicidade!
Nudez
como potência.


Nudez como estado no
mundo, como animal humano, como bicho, como La Bête.