domingo, 9 de junho de 2019

O que existe num Quarto Escuro?

A primeira vez que entrei num Quarto Escuro, me trataram como monstro. Eu estava carregado nas costas de um amigo e as pessoas nos pegavam sem entender o que era aquilo: duas cabeças, quatro bundas, o pau que era um pé calçado...

Ao longo da vida, minha sexualidade foi tratada como inexistente. Meu corpo não provocava desejo, eu não sentia desejo...

No período que compreendi por quem meu desejo batia mais forte, comecei a ficar com muitos homens, contrariando aquela expectativa do meu corpo não ser desejado.
Um dia, eu soube que havia umas pessoas que sentiam tesão, justamente, na minha perna fina, na minha escoliose, na cadeira de rodas. E eu achei isso o máximo!

Há dez anos, eu criei um projeto que tratava sobre isso.
Agora, juntei uma galera para falarmos sobre desejo, corpo... sobre o que se revela num Quarto Escuro. Sabendo que, ali, naquele espaço, o que não pode ser anunciado como desejável, se esconde na escuridão e todos passam a mão, metem a boca e saem como quem não existe.

O que existe num Quarto Escuro? O que esse processo me revelou a mim mesmo?

Nessa quarta-feira, 12/06, o projeto Quarto Escuro recebe “Nus e [des]graçados”, performance de Edu O. e Estela Lapponi, 19h, $10,00, no Teatro do Movimento da Escola de Dança da UFBA.

Quarto Escuro é parte do projeto "O Bicho, O Amigo e O Santo: olhares sobre corpos destoantes", coordenado por Edu O., aprovado pelo Edital PIBIArtes 2018-2019 da PROEXT/UFBA que propõe investigação acerca do corpo com deficiência na relação com a sexualidade, estruturas de poder e desejo, ressignificando os padrões hegemônicos na Dança.

Acompanham esse processo: Natalia Rocha, William Gomes, Thiago Cohen, Junior Oliveira, Kiran Gorki, Aldren Lincoln, Gabriel Sousa Domingues e Estela Lapponi.

foto Aldren Lincoln

Desejo sobre corpos destoantes

Durante toda minha infância e adolescência, eu só convivi com bípedes e a Bipedia (junto com a Branquitude e a Heterossexualidade), como vocês sabem melhor do que eu - ou não, só entende o belo, o desejo, o corpo, a partir de sua perspectiva que mais tarde eu compreendi como bastante limitada. E ainda dizem que quem tem limitações somos nós!

Voltando ao início desse texto, como eu não me encontrava com nenhum par, eu construí um imaginário de corpo belo e desejável a partir da lógica bípede. Claro que eu não me encontrava ali. Então, cobria (ainda cubro) minhas pernas com calças longas. Quando minha coluna começou a entortar eu não queria expor minha escoliose, minha barriga lateral, como chamo...

Quando me compreendi gay, as coisas mudaram um pouco e tive relacionamentos, pegas, pegações de maneira mais constante (não é porque ficavam comigo que eram devotees, viu? não deturpem minhas palavras). Porém, eu ainda não me entendia belo, eu ainda queria me trancar num quarto escuro onde meu corpo não fosse visto. Eu já transei de calça para a pessoa não ver minha perna. Observem as violências que sofremos com os padrões bípedes.

Mas foi ao ouvir sobre os devotees que eu transformei o olhar sobre meu corpo. Devotee é a pessoa que sente atração pela deficiência. Descobrir isso mudou uma chave que eu tinha da negação. Eu comecei a enxergar meu corpo pela perspectiva de quem se interessa por ele, deseja o que é indesejável nos padrões hegemônicos. Claro que nessa relação existem inúmeras camadas e nada é só flores, existe violência e subalternização, mas saber que uma parcela da população sente tesão pelo que é rejeitado pelo desejo comum, me trouxe alívio e outra relação com meu corpo.

Além de corpos próximos ao meu, sei que existem outros que também sofrem com essa hegemonia do belo e desejável. 
Pensando nessas questões, submeti um projeto no Edital Pibiartes - PROEXT/UFBA e desde o ano passado, estamos investigando artisticamente essas camadas.

Vamos compartilhar como parte desse processo, a performance Nus e [des]graçados, com Edu O. e Estela Lapponi, na próxima quarta-feira (12/06), às 19h, no Teatro do Movimento da Escola de Dança da UFBA, R$ 10,00. 

Comigo, ao longo desse ano, estão no processo: Natalia Rocha, William Gomes, Thiago Cohen, Aldren Lincoln, Junior Oliveira, Kiran Gorki, Gabriel Sousa Domingues e Estela Lapponi que veio de SP especialmente para esta apresentação.

Agradecer aos nossos apoiadores: PROEXT/UFBA, Escola de Dança da UFBA, Casa Rosada, Café Confeito e Bagacinho Boteco.



#pracegover Descrição da imagem: Flyer quadrado com fundo preto onde vê-se ao meio sombras de três pessoas à frente de luzes brancas e vermelhas que iluminam parte de um tecido branco. À frente, o peitoral e parte da cabeça e braços de outra pessoa, sem muita nitidez, iluminados por uma luz que vem do chão. No canto esquerdo lê em letras brancas Quarto Escuro. Entre a palavra Escuro uma mancha branca redonda. Abaixo, lê-se 12/06, Teatro do Movimento Escola de Dança. À direita, anuncia-se 19h, $10, classificação indicativa: 18 anos. Uma faixa branca atravessa toda a parte inferior da imagem, divulgando os Apoios: Escola de Danca da UFBA, UFBA, PROEXT, PROEXT e PIBIArtes 2018/2019, Casa Rosada, Café Confeito e Bagacinho Boteco. Fim da descrição

VOCÊ: UM OUTRO QUE O OUTRO NÃO É



Desenho de Wilson Macário

Escrito por Edu O., Estela Lapponi e Wagner Schwartz, em 17/01/2014
Projeto 7x7 

PARTE 1 – O MOVIMENTO DE UMA PESSOA SERÁ SEMPRE DIFERENTE DO MOVIMENTO DE UMA OUTRA PESSOA

Passeando por uma avenida com meus amigos, eu precisava me desviar de alguns buracos e eles de outros. Edu não encostava os pés no chão, o espaço entre sua perna de rodas e a calçada deixava as fissuras imperceptíveis – embora ele sentisse, sistematicamente, os desvios que eu precisava fazer enquanto o empurrava. Estela saltava as rachaduras sustentada por seus dois outros braços de ferro.
No meio do caminho, meu pé esquerdo se prendeu por três vezes e, enfim, por uma quarta ou quinta vez. O lado direito de meu corpo compensava o peso do outro; em minha cabeça, se passava um monte de informações que buscava a minha atenção e a deles.
Caminhávamos, desavisados pelo desnível dos passeios que nos deixava sem equilíbrio, em um estado de risco, dependentes uns dos outros. Por vezes, voltávamos a falar sobre nossa amizade e sobre coisas que não interessariam serem escritas. Entre um momento e outro, o deslocamento voltava a ser um prazer, porque estávamos, os três, pensando ao mesmo tempo.
Se a viagem que fazíamos pudesse ganhar em qualidade, ela precisaria da ação de quem pode decidir sobre a pavimentação das avenidas e, também, sobre a qualidade de vida das outras pessoas – porque os problemas de uns podem ser, mesmo em suas diferenças, os problemas dos outros.
Edu, Estela e eu aprendemos sobre nossos direitos civis na escola. Do lado de fora, na relação com as coisas mais óbvias, experienciamos a falta desses direitos. Por vezes, os espaços se organizam na separação entre quem não precisa estar nas ruas e aqueles que só vivem se estiverem passeando por elas. Essa forma de ajuste dos direitos no mundo ajuda a manter os movimentos do emprego, das vendas dos livros técnicos e de autoajuda, do isolamento e da preguiça.
Alguém interrompe a nossa viagem para dizer que nossas diferenças são especiais, merecem uma atenção privilegiada. Considerando os desvios entre os universos do gesto e da palavra, aquilo que sobra se apresenta na forma de um discurso sobre a garantia das ressalvas, sem interjeição: meus amigos se tornam deficientes e eu, homossexual. Para cada qual, surge uma manifestação de oportunidade no mundo como a Dança Inclusiva e o Movimento Queer. Sem tomarmos conhecimento de uma distinção, passamos de cidadãos a vítimas.
Mesmo que as avenidas tenham, para cada uma de suas passagens, o seu argumento, existe para cada uma de suas partes, como também para os buracos: aqueles que os criam, aqueles que passam por eles e, ainda, a geração de quem os observa. Deixar de observar e passar a ser observado, sem chance para uma conversa, faz parte do movimento mundial das coisas que repudiamos. Claro, pensem o que quiserem pensar.
As coisas serão sempre assim, porque geram lucro. Mas, seria interessante, num presente próximo, se parassem de publicar o que pensam sobre a nossa condição em grande escala ou, ainda, pedissem informações mais precisas sobre qual é a situação – social, cultural, política, psíquica – que nos acompanha, como pedir licença para entrar na casa do vizinho. Isso evitaria o constrangimento de muitos.
Vivemos em um momento em que temos a chance de sermos como nascemos, da forma que nascemos sem imaginar que isso seria um risco ou deveria ser levado em consideração por pessoas que passam longe de nossa história. Se nossa forma de vida não causa nenhum significado para as vidas dos outros em particular, seria mais interessante pensar que passeamos por uma mesma avenida e que as adaptações precisam ser feita para todos, porque o movimento de uma pessoa será sempre diferente do movimento de uma outra pessoa. 
PARTE 2 – CADA PESSOA É UMA OUTRA PESSOA
Define-se corpo como uma estrutura humana. Ele nos identifica, nos coloca em grupos ou fora deles, nos transforma em seres perceptíveis, nos qualifica enquanto pessoas – cada qual com qualidades distintas, sem possibilidade de comparação.
PARTE 3 – UM CORPO A CORPO NAS IDEIAS
Recentemente, em São Paulo, ocorreu a Mostra Internacional de Arte +Sentidos. Um evento inédito que ofereceu acessibilidade comunicacional e arquitetônica para qualquer pessoa. Sua programação continha espetáculos de dança, teatro, performance e debates, encontros, workshops realizados por artistas com e sem deficiência. 
A Mostra foi realizada no Teatro Sérgio Cardoso e foi promovida pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio das Secretarias da Cultura, dos Direitos da Pessoa com Deficiência e em parceria com o British Council, através da mostra UNLIMITED – Arte sem Limites (maior programa voltado à produção de trabalhos realizados por artistas com deficiência, lançado em 2009 pelo Comitê de Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres 2012). 
PARTE 4 – ESTELA LAPPONI
Considero a Mostra +Sentidos inaugural na história de São Paulo e, talvez, do Brasil, pois ela cria sua importância na extensa programação, na qualidade/quantidade de artistas e profissionais envolvidos e no teatro que a sediou propondo, em sua estrutura, todos os dispositivos de acessibilidade. Fiquei impressionada com a prontidão e organização dos profissionais que atendiam o público.
Como artista, foi importante conversar sobre a audiodescrição de meu trabalho. No exercício de uma edição, o lugar do outro se expande. Neste caso, Andrea Paiva foi uma excelente profissional, porque acompanhou cada detalhe de uma tradução.
+Sentidos possibilitou, também, a experiência do público com o próprio público: pessoas com deficiência visual, auditiva ou física puderam participar dos espetáculos, encontros, workshops de forma distinta. Pessoas sem deficiência puderam experimentar os dispositivos de acessibilidade para compreenderem como se davam as passagens de um sentido a outro, desse ou daquele modo. Pessoas com e sem deficiência se encontraram no evento, com direitos iguais.
O mundo acontece quando ele se especializa.
PARTE 5 – CADA PESSOA PODE SER
Esse foi o primeiro grande evento em São Paulo que tinha em sua programação trabalhos produzidos por artistas com deficiência. Outros eventos, com pequeno e médio porte, também existem no Brasil ou espalhados pelo mundo, mas os meios de comunicação social ainda insistem em dar, a cada um desses encontros, uma certa ideia de extraordinariedade. Em seus discursos jornalísticos prevalecem os “exemplos de superação”, a “lição de vida”, a “dança para todos” ou “a arte de outros corpos”.
Penso que nós, artistas com deficiência, alimentamos essa máquina. Talvez tenhamos começado a aparecer na cena de um jeito meio estranho. No séc. XVII, nos chamados freak shows (espetáculo de fenômenos), os artistas com deficiência ou com habilidades físicas excepcionais eram as atrações bizarras nos circos itinerantes e nas cortes. Nos tempos das monarquias e impérios, eram indigentes bufões da Idade Média.
Fosse como fosse, causávamos reações distintas no público. Com o tempo, pudemos decidir sobre apresentar-nos de outras formas, humanizando a nossa presença, expandindo as possibilidades de pensar o corpo e as suas diferenças.
Hoje, existem inúmeras companhias de dança, teatro, circo que possuem, em seu elenco, pessoas com habilidades diferentes, tanto no Brasil quanto no exterior. O International Festival of Wheelchair Dance (Festival Internacional de Dança com Cadeira de Rodas), ocorrido em 1997, em Boston, é o primeiro evento que reuniu oito companhias profissionais de dança contemporânea oriundas da Europa, América Latina e Estados Unidos. Dentre outras atividades, o evento promoveu debates entre os participantes sobre a nomenclatura dessa “nova forma de arte”. Chegaram em algumas proposições como: Dança de Habilidades Mistas e Dança Inclusiva. Hoje, a classificação “inclusiva” é cada vez mais presente em nossa cultura.
Uma proposta artística quando categorizada como “inclusiva” esclarece ao consumidor que ele terá condições de usufruir daquele produto/obra com todos os dispositivos necessários para compreendê-la e/ou que aquela forma de arte se trata de um trabalho realizado por artistas com e sem deficiência. Mas o fato do artista ser uma pessoa/corpo com deficiência, justificaria identificar o seu trabalho, seja em qualquer forma de linguagem, de arte inclusiva? O quê, em nossa época, definiria essas especificidades? Qual é a necessidade de informar aos públicos que aquilo que eles irão experienciar será feito por pessoas com habilidades diferentes? Cada qual carrega em seu corpo uma diferença que o define enquanto pessoa.
O que de fato quer dizer arte inclusiva?
Algumas manchetes relativas ao evento +Sentidos em São Paulo, reafirmaram o lugar da arte inclusiva, da mostra inclusiva e dos devidos achismos que provém dessa categorização. Sem mencionar os conteúdos que sobrepõem as deficiências dos artistas aos trabalhos feitos por eles, tornando-os heróis e vítimas daquilo que são, ao mesmo tempo, podendo produzir o áudio de fundo “óóóóó!!!” nas cabeças de certos leitores.
Na Mostra +Sentidos, em maior ou menor escala, os meios de comunicação social abordaram os artistas com deficiência tal qual os administradores dos freak shows. Se, naquela época, a forma de difusão dos eventos era brutal, pois divulgava os “extraordinários fenômenos humanos”; hoje, a relação entre mídia e espetáculo, em pleno séc. XXI, continua acentuando a curiosidade da massa, fortalecendo um processo de normatização ideológica vitimizador tanto para quem assiste ao trabalho, quanto para o próprio artista deficiente que se apropria dessa autopromoção, para conseguir seu lugar no mercado de trabalho.
O trabalho realizado por esses artistas, no entanto, ficou em último plano, esquecido. Perguntas como: porque você investigou esse tema em seu trabalho? Como você desenvolveu a dramaturgia de seu projeto? Como foi o seu processo de criação? Não foram feitas pelos jornalistas. E, se foram, terminaram editadas.
Esse tipo de assédio não é restrito apenas às mídias brasileiras e nem exclusivo às pessoas com deficiência. Existem formas de abordagens internacionalizadas sobre gays, negros, favelados ou mulheres, feitas por pessoas que se sentem naturais – que acreditam prescindir de dispositivos que as façam existir.
Em Londres, onde as discussões a respeito da deficiência se intensificaram a partir da década de 70, no surgimento do Disability Studies (que problematizou a deficiência não somente pelo viés físico e biológico, mas também pelas barreiras sociais, arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais) é possível notar que os meios de comunicação social naquele lugar ainda utilizam o discurso de superação quando se referem aos artistas com deficiência. Essa forma estratégica de observar o outro, ficou evidente no material de divulgação das Paralimpíadas 2012 – que sobrepôs a foto dos paratletas ingleses com o slogan Meet the super humans(“Conheça os super-humanos”).
É recorrente ver associado às pessoas com deficiência, quer na área esportiva ou artística, às palavras “limite”, “barreira”, “superação”, talvez porque o lugar em que os deficientes vivem seja um espaço em que os dispositivos de locomoção ainda não foram adaptados para eles, mas para uma grande maioria. A vida não pode se tornar mais cara do que ela já é. A noção de deficiência, nesse caso, não estaria mais ligada ao que está do lado de fora de uma pessoa do que naquilo que constitui o seu próprio corpo?
Precisamos de mais eventos como a Mostra +Sentidos, que pretendem valorizar a produção dos artistas com e sem deficiência, mas precisamos questionar também o modo como o evento é divulgado, pois não aceitamos que nossos trabalhos sejam enquadrados em categorias das quais não nos sentimos representados, destruindo qualquer possibilidade de conectá-los à arte.
É claro que os meios de comunicação social não estão sozinhos na fabricação de piedades, superações e exemplos de vida. No caso da mostra em questão, o equívoco, talvez, esteja no próprio release, feito pela assessoria de imprensa, que especificou a deficiência de cada artista participante. Isso nos faz refletir sobre a ação dos curadores, produtores, organizadores. Será que eles não entendem que essa ação dificulta a entrada dos artistas deficientes em outras mostras, como qualquer outro artista, no momento em que estamos discutindo arte e não fisicalidades?
Seria produtivo eliminar a espetacularização de nossa existência e seguirmos em frente no que diz respeito à produção artística de qualquer um. 
PARTE 6 – DIREITO À DIFERENÇA
As Leis nº 10.048 (8 de novembro de 2000) e nº 10.098 (19 de Dezembro de 2000) garantem a acessibilidade. Elas já deveriam ter sido aplicadas em todos os espaços culturais (cinemas, teatros, museus, serviços públicos), não apenas em eventos em que pessoas com deficiência estarão se apresentando.
PARTE 7 – PESSOAS
Se o corpo tem diferentes definições e, por isso, formas infinitesimais de movimento; se um corpo é, também, uma pessoa e, portanto, toda pessoa é diferente uma da outra, porque a arte feita pelos artistas que possuem deficiência é insistentemente chamada como arte de outros corpos? Se substituíssemos a palavra “corpo” pela palavra “pessoa”, já que corpo é também uma pessoa, não soaria estranho dizer: “arte de outras pessoas”?

O outro é aquele que não é você.

Edu O. [www.monologosnamadrugada.blogspot.com.br] é integrante do Grupo X de Improvisação em Dança, desenvolve também projetos independentes e em parceria com outros artistas. Cursa o mestrado em Dança pela UFBA pesquisando as relações das políticas culturais brasileiras com a produção de artistas com deficiência. 
Estela Lapponi [www.zuleikabrit.blogspot.com.br] desenvolve projetos independentes – inCena 2.5 – e em parceria com outros artistas. Desde 2010 investiga, em diversas expressões, o termo que criou: Corpo Intruso. Idealizadora da Plataforma Acessolivre.




Wagner Schwartz [www.wagnerschwartz.com] Trabalha com arte contemporânea, dança e literatura, entre São Paulo e Paris. Seus projetos problematizam as relações artísticas e seu percurso.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Mais um dia divino!

"O sol ensolará a estrada dela..."


foto Marconi Araújo

Depois de 15 anos, retorno à Alemanha. Para mim, é muito significativo voltar apresentando a performance "Ah, se eu fosse Marilyn!"** que trata, exatamente, sobre a temporalidade das experiências, dos desejos, dos sonhos...

Interessante observar aquela pessoa com os olhos de agora, olhando para o que é o futuro daquele tempo. Em alguma medida, eu sabia que "daria certo", seja lá o que isso queira dizer. Mas, eu intuía que minha trajetória corresponderia aos meus desejos e, por isso, fiz tanto para que chegasse aqui.

Em Marilyn, busco refletir sobre "esse aqui", sobre o que nos tornamos, sobre as marés que nos trazem a esse instante que nos afoga de lembranças e anseios para o futuro que nunca saberemos como será.

Retomar este trabalho que comemora 10 anos, embora nunca o tenha abandonado, refletindo nesse corpo-pessoa que me tornei, mais envelhecido, pelos brancos, olhar entristecido e boca desejaste.

A boca que maquia, lambe, mastiga, engole. A boca que é um dos lados da ampulheta, assim como os que veem, piscam, cegam, adormecem, lacrimejam o mar. O mar que não é possível transportar, mas transbordamos de tanto mergulhar.

Não imaginava que o primeiro mergulho de Marilyn, em Itacaré, deixaria rastros tão fortes, como os vincos das rugas que envelhecem meu rosto quando eu sorrio e canto.

Mais um dia divino!***

*verso da música Dura na queda, de Chico Buarque, cantada por Elza Soares
**Performance apresentada no Tanz Begegnungen, em Karlshure/Alemanha
*** frase da peça Dias Felizes, de Samuel Backet



foto Álvaro Dantas

segunda-feira, 11 de março de 2019

Bipedia Compulsória

O projeto "O Bicho, O Amigo e O Santo: olhares sobre corpos destoantes”, aprovado no Edital PIBIARTES 2018/2019 - PROEXT/UFBA, relaciona-se com minha pesquisa de doutorado, iniciada neste ano de 2019, no Programa de Difusão do Conhecimento, intitulada - provisoriamente -

"ATRAÇÃO POR UM CORPO PERTURBADOR: BIPEDIA COMPULSÓRIA E SEUS MECANISMOS DE PODER, DESEJO E REPULSA PELA DEFICIÊNCIA, NA DANÇA". 


Com esta pesquisa busco compreender as relações de poder que se estabelecem sobre as pessoas com deficiência, a partir do que pretendo desenvolver um campo conceitual que venho chamando de “BIPEDIA COMPULSÓRIA”. 

Bipedia não pelo fato de se andar com as duas pernas, mas a organização de mundo que só entende a existência a partir de um pensamento hegemônico de corpo que anula qualquer outra experiência corporal e provoca segregações, exclusões e violências.


Foto Christiana Lima

Venho articulando essa pesquisa com minhas atividades docentes e de extensão, como ocorreu no dia 22 de fevereiro, com a Oficina Dança de Rainhas: Dança Afro e Deficiência. Nessa foto, estou dançando em minha cadeira de rodas, ao lado de uma estudante em pé e professora Marilza Oliveira ajoelhada, onde pesquisávamos - cada um à sua maneira - movimentos da Dança Afro que é uma dança criada e pensada para o corpo bípede e a verticalidade é predominante.

Em breve, eu e Marilza publicaremos um artigo onde refletimos sobre essa experiência e compartilharei, aqui, com vocês.

Percebo que esse termo "BIPEDIA COMPULSÓRIA", sobretudo "BIPEDIA" tem contribuído, nos espaços de reflexão, para o entendimento sobre as questões da deficiência e, sobretudo, sobre as questões das exclusões vividas por nós provocadas pela corporalidade bípede.

Como costumo brincar, falando sério, "vocês, bípedes, me cansam"!

sábado, 16 de fevereiro de 2019

É lindão Muzenza




No último dia 13 de fevereiro, a dançarina e empresária Josy Brasil foi coroada a Muzembela 2019 - Rainha do bloco afro Muzenza.

Essa coroação tem um significado muito importante porque traz reflexões acerca das questões ligadas não apenas às pessoas com deficiência, mas também do movimento negro e do próprio carnaval.

Reconhecer uma mulher cadeirante na exuberância de sua realeza, é afirmar seu poder, sua beleza, sua potência. Mobiliza os alicerces da exclusão tão presente no dia a dia das pessoas com deficiência, trazendo ao baile um olhar positivo sobre a deficiência. Sim! Porque nós também curtimos carnaval, dançamos, nos divertimos, bebemos, gozamos, trabalhamos... Embora desconsiderem nossa complexidade, como de qualquer pessoa, e nos reduzam a um olhar da doença, dos "coitadinhos", superação, como se tudo que fizermos está para além das nossas capacidades ou possibilidades, então se fugimos a esse script, nos tornamos em extraordinários.

Na verdade, o que torna extraordinária a coroação de Josy, não é a sua deficiência, mas um bloco nunca antes ter tido uma Rainha com deficiência. 

O bloco Muzenza, um dos mais tradicionais de Salvador, sai à frente dos demais e leva para a Avenida mais do que uma Rainha, leva em seu desfile uma verdadeira mudança de paradigmas.

Brilhe muito, Rainha Josy!! 

Representatividade importa!




fotos capturadas do facebook de Josy Brasil

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Dança de Rainhas: Dança Afro e Deficiência



No dia 22 de fevereiro, das 13h às 16:30, a Escola de Dança da UFBA e a ACSS “Acessibilidade em Trânsito Poético”, dos professores Cecília Accioly, Edu O. (Escola de Dança) e Maria Beatriz (Bacharelado Interdisciplinar em Saúde - IHAC), promovem a oficina "Dança de Rainhas: Dança Afro e Deficiência", ministrada pelas coreógrafas e dançarinas Josy Brasil e Graziela Santos, trazendo uma abordagem teórico-prática voltada para experimentações da corporalidade da pessoa com deficiência, que ressignifica códigos e padrões de movimento da Dança Afro.
Josy Brasil é primeira candidata cadeirante a tentar vaga na final do concurso da Deusa do Ébano (Rainha do Ilê) e junto com a professora de Dança e terapeuta corporal Graziela Santos, participa dessa atividade da Semana Inaugural da Escola de Dança da UFBA que conta também com a presença da professora Marilza Oliveira na mediação de um bate-papo com as artistas e intérprete de LIBRAS, além do percussionista Gilberto Santiago e do cantor Vinicius Lima.
A oficina "Dança de Rainhas: Dança Afro e Deficiência", aberta a todos os estudantes da UFBA e comunidade externa, é a primeira de uma série de ações que a ACCS Acessibilidade em Trânsito Poético pretende realizar ao longo do semestre, com o objetivo de provocar reflexões que contribuam para mudança de paradigmas excludentes, em relação às pessoas com deficiência.
Oficina Dança de Rainhas: Dança Afro e Deficiência
Onde: Teatro do Movimento da Escola de Dança da UFBA
Quando: 22 de fevereiro de 2019, das 13h às 16:30
Entrada Gratuita
Mais Informações:
accs.danca@gmail.com
#PraCegoVer Card da ACCS Acessibilidade em Trânsito Poético realiza Oficina "Dança de Rainhas". Dança Afro e Deficiência. Josy Brasil e Graziela Santos (fotos e nomes). Mediação de bate-papo em Libras Marilza Oliveira. Cantor Vinícius Percussão Gilberto Santiago. Teatro do Movimento. 22/02/2019.Gratuita. 13h às 16h30. Logomarcas Escola de Dança, IHAC , UFBA e PROEXT.