segunda-feira, 9 de novembro de 2020

A foto mais bonita do mundo

Durante todo esse tempo eu achava essa foto maravilhosa. Me percebia bonito e lembrava de como eu me sentia nesse exato momento: lindo! Não sei se eram os botões da camisa que me faziam me considerar mais maduro. O fato é que me achei lindo nesse dia e pedi ao fotógrafo - Seu Florisvaldo - para tirar esse retrato, embora eu não passasse de “bonitinho” para as pessoas, como uma miss simpatia. O padrão de normalidade não permite (ventos de mudança começam a soprar) se considerar uma pessoa com deficiência, realmente bela, há sempre um “mas”, um “apesar de”. Porém, hoje em dia, essa foto me revela outra coisa que eu esqueci durante muitos anos (a terapia deve explicar). Aí, eu estava no aniversário de uma amiguinha da rua onde eu morava e eu passei a festa toda sozinho. Me colocaram nesse sofá da sala, enquanto tudo acontecia na área externa. Sempre vinham me servir salgadinhos, doces e refrigerantes, mas eu passei uma festa inteira brincando sozinho. Essa fotografia deve ter sido o jeito que eu encontrei para me fazer presente ali. Eu sempre falo das sutilezas da bipedia e não estou culpando ninguém. Dentro da lógica bípede, talvez, ali fosse o melhor lugar que pudesse estar. Melhor do que ficar na mesa com adultos, já que as crianças corriam pelo pátio brincando. Hoje, eu olho esse menino sorridente e choro. A nossa solidão é algo que só os pares entendem. É como enfiar a cabeça embaixo d’água no mar. Algo que é único e pessoal. Só nós sabemos o silêncio que ouvimos dentro de nós, embora as ondas façam barulho ao redor. Ah, eu acredito que a Miss Simpatia ainda pode ser a mais bonita do mundo, assim como esta foto.

Super-Homen de cabeça para baixo ou porque sempre odiei o Teleton

Super-Homen de cabeça para baixo ou porque sempre odiei o Teleton e não é de agora. Em 2011, eu escrevi sobre o assunto quando ainda não ouvia falar sobre capacitismo, não estudava propriamente a deficiência e ainda não elaborava as questões como venho desenvolvendo agora, mas já sentia que esse programa reproduz e reforça o discurso tudo que combato há muito tempo. Caridade, filantropia é um projeto político histórico (está nos livros) de responsabilizar a sociedade civil e outras instâncias com aquilo que deveria ser responsabilidade do governo. Programas desse tipo, inclusive, muitas vezes, servem ao enriquecimento ilícito de alguns. Não estou questionando o trabalho da ACCD que é a instituição beneficiada com o Teleton, estou criticando a manipulação do uso da deficiência para comover e conseguir dinheiro. É manter a caridade com o discurso da pena e da culpa de quem tem mais dar a quem tem menos. Colaborar com um programa promovido e financiado por bolsonaristas, Silvio Santos, dono da Havan, etc... é inadmissível. Não se trata de "agora eles estão querendo mudar o discurso". Não é possível mudar o discurso porque o Teleton só existe por e para ser capacitista. Precisa comover para conseguir doações e comove apelando para a imagem fragilizada, dependente ou da superação da deficiência. É do cerne da existência desses projetos. Essa é uma questão estrutural, uma ACCD precisa da caridade pela falta de políticas públicas que garantam, de fato, nossos direitos em todos os âmbitos. É porque não brigamos pela efetivação dessas políticas, do investimento real na educação, saúde, mobilidade. Cadê nossa presença em outros programas, protagonizando novelas, jornais, apresentando nas tarde de sábado? Isso poderia efetivar mudanças reais. Esse problema se prolonga, exatamente, porque quem pensa a respeito e, mais recentemente, aparece criticando esse sistema em suas militâncias, cai no canto da sereia e reforça o discurso com sua presença esperando angariar likes e seguidores. Edu, mas o que tem a ver o Super-Homem de cabeça para baixo?

Malu Marley - primeira cadeira

Nem sei que idade eu tinha nessa foto, talvez entre 13 e 14 anos. Para mim, o que importa nela é Malu Marley - a minha primeira cadeira de rodas. Sempre nomeei minhas cadeiras com nome e sobrenome de artistas que admirava. Como vocês devem saber, eu tive poliomielite com 1 ano e só aos 13 ganhei Malu. Até então, eu me deslocava apenas engatinhando em casa e carregado na rua. Essa experiência é determinante em muitos aspectos da minha vida. Viver seguindo o trajeto que a pessoa que me carregava escolhia, decidia por mim. Até hoje, tenho dificuldade em andar sozinho com a cadeira, me bato nas pessoas, não sei para que lado desviar, a velocidade... e quando me empurram ainda guardo a experiência corporal de não poder escolher meu próprio caminho. As sutilezas e subjetividades da relação com a bipedia são tão intensas e marcantes, linha tênue entre o cuidado e exercício de poder, entre dependência e autonomia... e eu me expondo não sei pra que. Mas queria que vocês conhecessem Malu Marley. Nesse dia, estava em um sarau, recitando Castro Alves. Ainda tem a poesia da lembrança, não posso esquecer. E a nota do bogodinho? Kkkk Na imagem, estou em uma cadeira de rodas azul, maior do que eu, de manivela do lado direito. Eu, de paletó e gravata borboleta mal colada no colarinho, segurando um livro branco nas pernas, de bigode e sobrancelhas engrossados com lápis de maquiagem e boca semi aberta falando. Eu ainda tinha cabelo e franjas de escova.

sábado, 12 de setembro de 2020

Feliz Aniversário, Malu




O tempo passa voando. Já fazem oito anos que criei essa performance, recém chegado de Londres, na temporada que passei com a Candoco Dance Company. Arthur Scovino estava com a exposição “Levando os elepês de Gal para passear”, na galeria ACBEU e me convidou para fazer uma performance porque estava recebendo artistas amigos na exposição. 

A data da minha apresentação coincidia com o aniversário de Malu Mader (hoje) e pensando na homenagem que Arthur fazia a Gal, com sua performance e depois exposição que falava muito mais do que simplesmente uma homenagem a um ídolo. Na ocasião, pensei em “fugir” do tema Gal e fui pensando pelo lado do que aquele sentimento por alguém responsável por parte da nossa subjetividade, por alguém que nos inspira, o que aquela festa que eu oferecia a Malu falava também da minha vida, das minhas conquistas (eu tinha acabado de realizar o sonho de trabalhar com a companhia inglesa e Malu havia gravado o audiobook de Judite). 

Mais do que a Malu, eu festejava - sem tanta consciência - o que a vida me oferecia… sonhos como brigadeiros numa Festa do (meu) Interior. “A vida é para fora… A vida é para dentro…”

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Carta a quem já me matou - com Libras





Salvador, 19 de agosto de 2020

Carta a quem já me matou,

Você, talvez, não saiba, mas eu já morri mais de 100 mil vezes e continuo morrendo. Muitas pessoas me mataram e continuam matando, diariamente, sem sossego, sem um minuto de paz. Eu falo como pessoa com deficiência. A história comprova, não é preciso muito esforço para saber dos abismos da Grécia antiga, das comunidades indígenas que nos enterram vivos, da Inquisição que nos queimava para pagar o pecado que nosso corpo carrega, do abandono em manicômios, da esterilização para não procriarmos, do projeto eugenista, do holocausto nazista, do Holocausto brasileiro, do silenciamento, da invisibilidade, da negação dos nossos direitos e acesso à educação, comida, cultura, saúde, lazer, trabalho, salário… Das condições de miserabilidade que a maioria de nós enfrenta. Do apagamento e não reconhecimento das nossas capacidades, contribuições que damos para diversas áreas, das nossas ausências em espaços de decisão e poder, na política. Das agressões domésticas, dos abusos sexuais, das estatísticas de violência  alarmantes que sofremos sistematicamente.

A História parece distante, mas - talvez - você também não saiba que a História  é agora, nós somos parte dela e a constituímos. Não é algo fora, tecemos sua trama em continuidade absoluta. É importante olharmos para o que nossos ancestrais viveram, criticar a narrativa construída por pessoas brancas-cisgêneras-heterossexuais-bípedes, mas prestar atenção nas brechas do que nos contam porque se parece estarrecedor o que desejaram revelar, imagine o que ficou escondido?

Estamos em meio a uma pandemia que assola o mundo inteiro. Aqui, no Brasil, já morreram mais de 100 mil pessoas. Algumas respeitam o isolamento imposto para controle de contágios da Covid 19, mas outras tantas não suportam sua própria companhia e continuam vivendo como uma Sessão da Tarde “Curtindo a vida a adoidado” e se lixem as pessoas que precisam, de fato, sair para trabalhar. Se lixem as famílias que perderam seus entes, se lixem os mortos que já estão mortos mesmo, mas eu preciso ver o mar, dar parabéns a meu pai, visitar aquela amiga, tomar uma cervejinha escondido num bar de portas fechadas, queimar uma caninha com poucas pessoas, correr na orla porque isso também é cuidar da saúde… é tudo tão rapidinho, em horário que não tinha quase ninguém na rua. Por que a sua urgência - nem tão urgente assim - é mais importante do que a do outro que você critica julgando o comportamento do gado, do presidente, seus projetos descabidos para não controle das mortes? Você acredita que você contribui para tantas mortes? Não, ne? Deve ser exagero meu, afinal, você só está matando aquela vontadezinha rápida.

Sim! Deve ser exagero meu. Eu que estou desde 12 de março confinado a um quadrado de colchão sem perspectiva de poder matar minhas vontades e, talvez, morra por aqui mesmo diante de tanta gente que pode exercer seus desejos num momento de tragédia.  Sem o mínimo remorso. 

Recentemente, foi aniversário de meu sobrinho e eu cancelei uma operação de guerra que faria para tentar estar com ele durante 5 minutos, vendo de dentro do carro. Para mim, é impossível matar minhas vontades pq a cadeira de rodas só funciona numa relação direta com as minhas mãos que precisam pegar onde ela vai passando. No dia seguinte ao seu aniversário, meu sobrinho e minha irmã vieram nos ver e não passaram da porta pq temos uma mãe/vó idosa e eles podem matá-la se for contaminada, além de mim que também posso morrer por sua causa, pois também preciso comer, tomar remédios e as compras chegam em casa. Com a cidade cheia, alguma coisa pode chegar contaminada e ai, “adios, amor, yo vou partir, desta vez para sempre”… Fico desesperado qdo vejo vcs felizes exercendo suas vontades pq isso significa mais tempo eu num canto de colchão. Desculpe o desabafo, mas acho que não estamos em tempo de festejar. 

Você compreende que a abertura do comércio, dos bares, shoppings, academias, das ruas, enfim… é uma determinação do mercado? A pandemia não acabou e está se agravando e eles não estão preocupados com nossa vida. Você, inclusive, segue bem o script que eles roteirizam para seguirmos. Deve ser isso o que vocês chamam de “novo normal”. Não é porque o governo determinou abrir que você é obrigado a sair. Sua obrigação é cuidar para que profissionais da saúde, da limpeza, do transporte público e dos serviços essenciais não morram porque você não suportou ficar em casa, nesse isolamento que nós - pessoas com deficiência - conhecemos desde antes da História começar a ser contada. Dessa morte que alguém nos impõe incessantemente. 

Você, talvez, se pergunte: o que eu tenho a ver com isso? Você quer mesmo que eu te responda?

#pracegover A cor do video já está desbotada, sépia, assim como a minha graça, meu encanto, o brilho dos meus olhos. Trancado no meu quarto, desde Março, visto uma camiseta listrada. Além de meu marido e minha mãe que me acompanham nesse isolamento, pesam nas minhas costas a companhia de coisas: livros, objetos variados, imagens de orixás e santos. Atanael Weber, no canto inferior direito, de camiseta vermelha, me auxilia para ampliar o que eu quero gritar ao mundo fazendo Libras.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Carta aos bípedes #2 - com LIBRAS





Salvador, 29 de junho de 2020

Carta aos bípedes,

Você, talvez, não se dê conta, mas você é bípede. Sim, se você não possui nenhuma deficiência e é parte da categoria de pessoas construídas dentro de padrões normativos de corpo que consideram as experiências da deficiência como patologia; se nos olha com sentimento de pena, compaixão, coitadinho; se considera a pessoa com deficiência menos capaz, menos bela e improdutiva; se considera a deficiência como se fosse uma experiência única que se repete da mesma maneira para todas as pessoas e desconsidera a grande diversidade das deficiências e suas especificidades, além dos contextos pessoais, você é bípede. Se a sua inclusão quiser nos colocar nos cercadinhos específicos que mais excluem, sim, você é bípede. Se entende que o corpo sem deficiência é a única possibilidade de normalidade, sem dúvida, você é bípede.

Deixa eu te explicar logo que a bipedia, na minha perspectiva, é essa estrutura sócio-economica-cultural-política que determina o que é normal e o que é anormal, capaz e incapaz. O que apresento como bipedia não se trata da maneira de andar, é sobre o sistema de opressão pautado numa construção também histórica da normalidade, assim como é construída a ideia de deficiência.

Por exemplo, eu vou falar da Dança porque é minha área de atuação, mas faça um esforço e pense a partir do seu contexto. Você é bípede se a sua Dança desconsidera as possibilidades de diversos corpos e não se dá conta das limitações da própria bipedia que ao longo do tempo repete tantos clichês de uma verticalidade e virtuose tão redutoras sobre o que é dança e corpo; se nas suas escolhas estéticas, artísticas e, portanto, políticas, você mantém e reproduz espaços de invisibilidade e não reconhecimento da produção de artistas com deficiência; se na sua curadoria você não se dá conta de que o tema secular da Dança é o corpo branco-cisgênero-bípede que você teima em perpetuar na programação de seus festivais, bienais, eventos e não faz a mínima questão de romper com esse padrão e ainda nos mantém nas atividades extras, nas suas ações formativas que você nem participa e nas mesas de debate como um assunto que você também não quer ouvir; se em suas aulas você nem pensa nas pessoas com deficiência e quando aparece alguma ela que se vire porque “meu grand jeté é lindo demais para eu não mostrar”; se na sua produção você não se importa com a acessibilidade e até descumpre o que determinam as Leis brasileiras se justificando com falta de verba, mas também não luta para que os espaços culturais se responsabilizem com os equipamentos ou haja nos orçamentos dos editais ou ferramentas de fomento à cultura uma rubrica, específica, destinada à acessibilidade para todos os projetos. Você sequer pensa nisso e, no fundo, acha muito trabalhoso; se você for jornalista, continua insistindo no tom sensacionalista em matérias que nos tratam como nos antigos freak shows. Você entende? O pensamento bípede está em todo canto, domina todos os espaços e nos invisibiliza, nos recusa. 

O que falar então das suas novelas contando a vida da classe média branca bipede brasileira tão monotemáticas e enfadonhas sobre romances que você supõe que eu nunca poderei viver? Ou seus filmes, seu teatro, seus musicais que nunca nos representam. Posso te contar? Quando eu era criança sonhava em ser o protagonista da novela das oito, a TV era minha única referência no interior da Bahia, eu vivia sempre no mundo da lua com Emilia, o Saci e a Cuca… chegava até a contracenar, em casa, com Fernanda Montenegro, Malu Mader, Lidia Brondi… Mas eu não me via e ainda não me vejo nas telinhas, telonas, no seu palco tão bípede. Por isso decidi fazer Belas Artes na UFBA para tentar me manter artista como eu sempre soube que era. Depois, fiz umas aulas na Escola de Teatro e acabei na Dança onde estou há 22 anos, mas isso é uma longa história que posso te contar depois. Você, talvez, nem se interesse.

Eu queria mesmo entender quando você pensa em Dança, qual o corpo pode dançar a sua Dança? Quem pode fazer a tua arte? Quem pode assisti-la? Se todo corpo é a própria pessoa, pois não existe corpo isolado da pessoa, que pessoas cabem na sua caixinha? Quem você deixa fora? O que você pensa sobre deficiência? Quais as palavras você associa à deficiência? E quando pensa na relação Dança e Deficiência ou Arte e Deficiência, quais as imagens que surgem? Que referências você tem sobre o tema? E se você não tem nenhuma referência ou segue o senso comum, como se arvora a julgar nossa competência e produção? Você, provavelmente, nem conhece Estela Lapponi, Cia Gira Dança, Moira Braga, Mickaella Dantas, Dave Toole, Annie Hanauer, Dan Daw, Claire Cunningham, Carolina Teixeira, Natalia Rocha, Leo Castilho, João Paulo Lima, Jéssica Teixeira, Candoco Dance Company, entre tantos outros. Você sabe tão pouco sobre tanta coisa! Só para te lembrar, bípede, Frida Kahlo, Stephen Hawking, Franklin Roosevelt eram def. Pasme, bípede, mas o REI da música brasileira é def, sabia? Talvez, se ele tivesse assumido de fato essa característica você não o considerasse tão rei assim, não é? Espero não ter te decepcionado, mas no nosso caso, somos reis e rainhas que sempre estamos nus. Vocês nos olham e só enxergam o que acham ou querem achar sobre nossos corpos. Sobre nós.

O buraco é mais embaixo... e as rodas da minha cadeira não conseguem atravessar. Vocês sempre criam buracos para eu não me aproximar tanto de vcs. Vai que a deficiência pega, ne?! Aliás, o buraco é mais em cima, abissal, como diz Boaventura de Sousa Santos, estabelecendo quem pertence e quem não pertence a um determinado lado da linha que vocês inventaram para criar hierarquias e espaços de poder sobre quem está autorizado a falar e quem deve silenciar ao longo da vida, subjugado às suas ordens. Você, bípede, nos prende no quartinho dos fundos para esconder aquilo que revelamos sobre vocês mesmos. Vocês tem medo de nós.

Vou te contar uma história que li no livro Holocausto brasileiro - Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil, de Daniela Arbex. Antônio foi internado no manicômio de Barbacena e passou vinte e um anos em total silêncio, era considerado mudo pelos funcionários do local. Um dia, Antonio soltou a voz ao ouvir uma banda de música. Todos se espantaram e perguntaram porque ele não tinha informado que falava. Ele, então, responde: uai, ninguém nunca perguntou.

Pois bem, vocês também nunca me perguntaram, mas eu não silencio e repito incansavelmente: VOCÊS, BÍPEDES, ME CANSAM!

Sem dúvida não conseguimos desconstruir e destruir estruturas tão fixas assim. O pensamento bípede é da nossa estrutura social, molda e limita a compreensão de corpo e de mundo que anula qualquer experiência fora do que é considerado normal. Essa normalidade não existe, bípede. Acredite em mim! Repense, reveja, mude esses conceitos. Não dá mais para você continuar vivendo montado em tantos privilégios. Sabe por que? Eu percebo um vento que vem de longe para soprar - quem sabe - alguma mudança. Nós - pessoas com deficiência - estamos ocupando espaços, furando algumas bolhas. É da ordem do existir mudarmos quando entramos em contato com o outro, nos perturbamos com o desconhecido ou, nesse caso, nem tão desconhecido assim, mas justamente por ser tão conhecido nem nos damos conta. O encontro… o contato… transformam.

Agora, falo aos meus pares, esses “corpos intrusos”, como diz Lapponi, que chegam sem pedir licença, invadem onde não foram historicamente chamados e rompem tudo desde a arquitetura até as atitudes, a comunicação, a tecnologia… “corpos intrusos” que instigam, incomodam, coçam o meio das costas, furando essas bolhas para afirmar o que somos e rejeitar padrões impostos. Jamais esquecer de que quando entramos nos espaços os transformamos. Experiência vivida não se apaga. Ninguém fala por ninguém, ninguém fala por nós, mas podemos compreender o universo do outro e tentar criar junto com ele. Lembremos sempre do que Djavan canta: “voar… é do homem”.

Eu te escrevo, bípede, não para aumentar os abismos que tantas vezes vocês nos jogaram desde a Grécia antiga, mas para criarmos pontes, para vocês se darem conta das violências que provocam cotidianamente, até mesmo no tratamento que pensam ser carinhoso, mas vem carregado de compaixão, pena. Eu sei, alguns de vocês nem sabem.

Mas, olha, se já havia passado da hora da mudança, não será este o momento para transformarmos nossos hábitos de consumo, romper padrões que criamos, repetimos e nos determinam o que é belo, o que é produtivo e capaz? Quando sairmos desse isolamento que vocês bípedes estão achando uma novidade, mas que para nós - pessoas com deficiência - é uma condição imposta rotineiramente pela falta de acessibilidade e oportunidades, o que vai importar? Quais vidas importam? Umas mais outras menos? 

Você até aparece defendendo causas com certa visibilidade, mas quando te chamamos para falar sobre nós, você se esquiva, diz que está muito ocupado, sem tempo e sem dinheiro. Na verdade você nem lembra da nossa existência. Na sua luta anti qualquer coisa e em defesa da vida, você pensa na vida da pessoa com deficiência? Se não, bípede, me desculpe te desapontar, mas eu não acredito na sua luta. Sabe por que?

Porque o corpo com deficiência é futuro. Tenho repetido isso incansavelmente. A experiência da deficiência é um porvir constante para qualquer pessoa sejam mulheres, homens, negras, indígenas, transsexuais, cisgêneras, gays, lésbicas, assexuadas… se não por alguma surpresa do destino, pela própria vida. Sim, quando envelhecemos é porque nos mantemos vivos e o envelhecimento é companheiro da deficiência. Entender o corpo com deficiência como futuro é pensar na contribuição que estudos da deficiência tem trazido para diversas áreas da ciência, desde estudos da medicina, quanto robótica, tecnologia, comunicação, artes… enfim, pensar por outra via, pensar dialogicamente, desconstruindo uma perspectiva de subalternidade da deficiência. Se todo mundo pode vir a ter deficiência, não seria melhor construirmos um mundo a partir dessa realidade?

Pelo futuro que já é agora, desejo que nós, pessoas com deficiência, ocupemos espaços de visibilidade porque somos multidão. Tentar quebrar as barreiras impostas pela normatividade deve ser o que nos faz mover e mostrar essa história ainda pouco contada e quase nada acessada por grande parte das pessoas. Para mim, isso é o que me faz existir nesse passado-presente-futuro-AQUI

Até breve,
Edu O.



Edu O. é artista da dança, performer, professor da Escola de Dança da UFBA, mestre em Dança, cadeirante, gosta de escrever e criar conteúdos no seu Instagram @eduimpro alertando para as exclusões e violências provocadas pela bipedia compulsória, termo que desenvolve - atualmente - no Doutorado Multiinstitucional e Muldisciplinar em Difusão do Conhecimento.

Tradutor/Intérprete de LIBRAS: Atanael Weber

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Carta aos bípedes


Você, talvez, não se dê conta, mas você é um bípede. Sim, se você não possui nenhuma deficiência e é parte da categoria de pessoas construídas dentro de padrões normativos de corpo que consideram as experiências da deficiência como patologia, com sentimento de pena, compaixão, se considera a pessoa com deficiência menos capaz, menos bela, improdutiva. se considera a deficiência como se fosse uma experiência única que se repete da mesma maneira para todas as pessoas, mas desconsidera a grande diversidade das deficiências e suas especificidades, além dos contextos pessoais. Se a sua inclusão quiser nos colocar nos cercadinhos específicos que mais excluem, sim, você é bípede. Se entende que o corpo sem deficiência é a única possibilidade de normalidade, sem dúvida, você é bípede.

Você é bípede, se a sua Dança desconsidera as possibilidades de diversos corpos e não se dá conta das limitações da própria bipedia (essa estrutura socio-economica-cultural-política que determina o que é normal e o que é anormal. Já entendemos que a minha abordagem da bipedia não se trata da maneira de se deslocar), se nas suas escolhas estéticas, artísticas e, portanto, políticas, você mantém e reproduz espaços de invisibilidade e não reconhecimento da produção de artistas com deficiência, se na sua curadoria você não se dá conta de que o tema secular da Dança é o corpo branco-cisgênero-bípede e não faz a mínima questão de transformar isso e nos mantém na programação como extras, se em suas aulas você nem pensa nas pessoas com deficiência e se aparecer alguma elas que se virem porque “seu grand jeté é lindo demais para não mostrar”…

Sem dúvida não conseguimos desconstruir e destruir estruturas tão fixas assim, mas o fato de vocês terem nos acompanhado e suportado tantas provocações, já indica um vento que vem de longe para soprar - quem sabe - alguma mudança. Nós mudamos quando entramos em contato com o outro, nos perturbamos com o desconhecido ou de tão conhecido nem nos damos conta. O encontro, o contato transforma.

Durante essa semana entendemos juntos, esse corpo intruso que nos instiga, coça o meio das costas, essas bolhas que furamos para afirmar o que somos e rejeitar padrões impostos. Jamais esquecer de que quando entramos nos espaços os transformamos. Experiência vivida não se apaga. Ninguém fala por ninguém, mas podemos compreender o universo do outro e tentar criar junto com ele. Hoje, saberemos que voar… é do homem! (Djvan)

Se já havia passado da hora da mudança, não será este o momento para transformarmos nossos hábitos de consumo, romper padrões que criamos, repetimos e nos determinam o que é belo, o que é produtivo e capaz? Quando sairmos desse isolamento que vocês bípedes estão experimentando pela primeira vez, mas que para nós - pessoas com deficiência - é uma condição imposta pela falta de acessibilidade e oportunidades, o que vai importar? Quais vidas importam? Umas mais outras menos?

O corpo com deficiência é futuro. Tenho repetido isso incansavelmente. A experiência da deficiência é um porvir constante, se não por alguma surpresa do destino, pela própria vida. Sim, quando envelhecemos é porque nos mantemos vivos e o envelhecimento é companheiro da deficiência. Se você tem problemas com a velhice, não seria esse também o momento de pensa-la como vida?

Pelo futuro que já é agora, eu quero agradecer a companhia de vocês durante essa semana.

Ocupar espaços de visibilidade, me entender parte de uma multidão e tentar quebrar as barreiras impostas pela normatividade, me movem e me fazem existir e, mesmo com toda insegurança, a aceitar o que nem me era tão confortável como fazer lives. Mas vocês me colocaram no colo e me fizeram acreditar que estavam aqui comigo, neste sofá cinza. 

Estar acompanhado de Estela Lapponi, Alexandre Américo, Moira Braga, Clarissa Costa e Mickaella Dantas foi uma estratégia que encontrei em fazer ecoar reflexões e discussões que venho alimentando há muito tempo, buscando não centralizar o discurso, não personalizar essa história ainda pouco contada e quase nada acessada por grande parte das pessoas. Pensar num panorama, ainda que restrito, que reflita essas questões diante de realidades variadas e da diversidade que nos constitui nos diversos pontos do país. Esse passado-presente-futuro AQUI.

Sentirei saudade, mas estarei logo ali do lado, no insta @eduimpro, caso queiram continuar de mãos dadas.

Até a próxima e que não demore tanto!

Com todo afeto,


Edu O.


sábado, 13 de junho de 2020

Workshop Dança e Deficiência


Fui convidado pelo Centro Cultural São Paulo a ministrar, a partir de segunda (15/06) até sexta (19/06), das 10h às 11h, um curso sobre Dança e Deficiência, transmitido no Instagram do próprio CCSP - @ccsp_oficial. Para quem se interessar, o curso apresenta a relação entre dança e deficiência, buscando refletir como se deu este encontro e como, a partir da década de 1990, essa relação se fortaleceu. Apresentarei também minha pesquisa de doutorado e receberei alguns convidados para conversarmos sobre processo de criação, profissionalização, metodologias, também sobre ferramentas de acessibilidade como disparadores para a criação em dança. Estarão comigo: Estela Lapponi/SP, Alexandre Américo-Cia Gira Dança/RN, Moira Braga/RJ, Clarissa Costa-Dança Libras/CE e Mickaella Dantas/RN. Juntas somos mais fortes. Apareçam e ajudem a divulgar, por favor. Muito obrigado! Bom final de semana.

#PraCegoVer: Foto de um homem vestido de preto, sentado em um chão de paralelepípedo e com uma das mãos na cabeça careca. Ele tem barba grisalha, está maquiado. Dividindo a imagem, do lado direito, uma coluna laranja com letras brancas escrito: Live Workshop Dança e Deficiência com Edu O. 15 a 19/06 (segunda a sexta), às 10h, No Instagram @ccsp_oficial. Abaixo, canto inferior direito logomarcas São Paulo capital da cultura e Cidade de São Paulo Cultura. Fim da descrição