sábado, 30 de julho de 2011

Dudu do quarto do fundo

Todo mundo tem um Dudu no quarto do fundo, se não tem, conhece alguém que tenha. Dudu é aquele membro que a família considera especial, mas tão especial que vive escondido naquele quarto úmido e escuro no quintal das casas. Tão especial que quem não é da família nem sabe que existe. Talvez pela escuridão do lugar as crianças sentem medos de Dudu. Quando éramos pequenos, nós também tínhamos uma pessoa assim. Íamos a Cachoeira, visitar uns tios, compadres de nossos pais. Passávamos uma semana na casa e aquele quintal enorme virava tudo que queríamos. Havia um quartinho sempre fechado, porta velha, fechadura grande que se abria para o banho de balde, demorado, da Dudu daquela casa, era uma menina que vivia lá. Dudu pode ser homem como mulher, tanto faz. Naquela família era menina. Minha memória não me deixa saber direito porque nunca mais voltamos àquela casa, assim como o quintal enorme que na verdade deve continuar pequeno com a mangueira no meio, Dudu deveria ser muito mais velha do que nós, mas cuidada como pessoa nova. Enquanto brincávamos na mangueira, minha atenção ficava voltada o tempo todo para o banho, o arrumar o cabelo, a camisola de algodão com rendinhas nas mangas e os dentes projetados  na dentuça de Dudu. Quando ela comia deixava cair as coisas pelo canto da boca e até hoje fico com nojo ao lembrar daquela baba com comida que também grudava nos dentes da frente. Enfiavam uma toalha grande na gola do vestido para não sujar a roupa sempre limpa. Dudu vivia asseada, no capricho. Mas Dudu vivia? Ficava o tempo todo trancada naquele lugar e o único horizonte que via eram essas crianças brincando de subir e descer naquela árvore.

Sempre me coloco no ligar de algum Dudu quando penso no pequeno da casa. Quando ele crescer e eu não mais estiver aqui, como será que ele lembrará de mim? Sentado na cadeira de rodas pedindo água? Dançando Odete, Judite ou O Corpo? Brincando de roda com ele?

Conheci outros Dudus pela vida a fora e o fim do todos nós já sabemos. Eu poderia ter sido um Dudu na minha casa, mas alguma coisa mudou essa história.

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